PEQUENA CRÍTICA | CHACINA NEVER STOPS

por Rafael Zacca

(Sobre alguns aspectos de A Voz do Ventríloquo, de Ademir Assunção.)

“O pior dos temporais aduba o jardim”. Com essa citação de “Ninguém vive por mim”, de Sérgio Sampaio, Ademir Assunção abre seu livro, A Voz do Ventríloquo (Edith, 2012). Essas palavras sugerem um desastre natural, uma catástrofe, para o sofrimento extremo, de onde surgirá o jardim. Para compreendermos esse jardim, devemos nos perguntar o que é este temporal e o que é este solo sobre o qual a torrente se derrama.

Um poema declara que “Chacina never stops” (“A chacina nunca para”) (p.17):

troia destruída, restam-nos
as ruínas de bagdá, chuva de mísseis,
capacetes made in united states
of america, mãos decepadas e olhares
que ainda miram lugar nenhum.

Troia é uma das mais antigas cidades arrasadas da história da poesia. Situá-la como origem mítica é atribuir a todo o processo de destruição determinada continuidade. A história da humanidade é identificada como a história da guerra. Assunção estabelece uma história sem fim, onde se modificam apenas os meios de destruição. A parte isso, história é destruição. Mas essa mudança não é menos significativa. O poeta se filia à poesia marginal de todas as eras (com referências explícitas ou implícitas a Blake, Baudelaire, Kerouac, Ginsberg, Torquato Neto e Leminski), mas compreende que deve fazer algo com o seu próprio tempo, pois este lhe foi legado e não outro. Em uma conversa em versos com Kerouac (“Jack Kerouac na praia brava”, pp.25-7), o beat lhe perguntava “se ainda havia hippies / nas ruas, feministas queimando sutiãs / em praça pública e negros / enforcados nos galhos de grossos carvalhos / no novo méxico”. Ao que o poeta Assunção lhe respondia: “oh não, jack, isso / faz tanto tempo. agora eles mandam os jovens / negros pobres para a guerra no iraque.”

A história da guerra sempre esteve entrelaçada com a história das artes. E mesmo os poetas podem ser mais perigosos que os soldados, algumas vezes. Basta lembrar do futurismo de Marinetti, que consagrou a Primeira Guerra Mundial como o mais belo poema futurista. “A guerra é bela”, repetiam alguns poetas fascistas. Mas o entrelaçamento entre arte e guerra pode ser um pouco mais complexo. Certamente o poeta Hölderlin teria detestado ver seus poemas incentivando o nacionalismo xenófobo que inflamava os soldados na guerra. E não é a mesma a relação de Homero com a guerra quando dizia, na Ilíada, que “a guerra então parece um amavio mais doce / do que voltar à pátria em côncavos navios” (trad. Haroldo de Campos, 2002), e a relação do manifesto futurista de Marinetti com a guerra fascista: “Não há nada para nós admirarmos hoje além das espantosas sinfonias dos estilhaços e as insanas esculturas que nossa inspirada artilharia molda entre as massas do inimigo.”

Seja como for, na Grande Guerra do século XX, os soldados alemães levavam poetas nas mochilas, para inspirá-los no momento da carnificina. Hoje, o rock n roll embala as ruínas do oriente. Ainda em “Chacina never stops”:

crucifixos
radiativos lançados sobre cabul
por um helicóptero ianque, pearl jam,
iron maiden e nirvana a todo volume
no headphone do soldado imberbe

(…)

antes que a luz do sol pudesse
iluminar o caminho de volta, o retorno
a uma ítaca estampada nas páginas
de um gibi amarelado, ou de um jornal
que embrulha o peixe na feira

E em “O Pântano” (p.57), a Segunda Guerra Mundial se enrodilha nas ramagens do poema (e assim, a estrutura secreta que serve como véu de toda A Voz do Ventríloquo se deixa, sutilmente, ver):

Há uma serpente enrodilhada nas ramagens
do poema:
cauda verde-turquesa, escamas
mitológicas, cabeça
de névoa.
Há um cemitério de aviões de caça da Segunda Guerra:
fuselagens corroídas
por vermes replicantes, ranhuras
de ferrugens,
pontas preparadas para rasgar a carne
dos incautos.

O livro de Assunção é um livro extremamente violento. O poeta que foi à guerra diz ter retornado perigoso. “Escrevo, e por isso deixo aqui / palavras escritas na água, na carne / dos que sofrem, escrevo com sangue” (pp.13-4), “quebrei o nariz de dois cretinos (bem maiores que eu)” (p.35), “eu sou a mandíbula do tubarão” (p.48), e “tenho gritado raios elétricos, chuvas / que não passam, maremotos, tremores e ruínas // grito: e meu grito ilumina” (p.82). O que escrever após a chacina? O primeiro poema em prosa do livro de Ademir Assunção adverte: “Poetry is dead” (“A poesia está morta”). A sentença é antiga. Ou a poesia agoniza há muito tempo, desde que sua morte foi anunciada, ou é um morto-vivo que não sabe mais por que caminha, que força oculta e perigosa ainda a move. Mas é tarefa daquele que pensa o seu tempo redefinir as velhas perguntas, e oferecer novas respostas. Chacina never stops, poetry is dead. Frente a isso apenas um lugar resta ao poeta: a poesia marginal. Aquela que se identifica com os oprimidos, com os pé rapados, com a ralé, com todo o tipo que a sociedade ocidental rejeita ou submete.

Mas, apesar da filiação a determinada tradição da poesia, Assunção permanece desconfiado de tudo e de todos. O que marca decisivamente a sua diferença com relação à geração beat, com quem poderia ser injustamente identificado e à cuja estética inadvertidamente reduzido, é a ausência da geração. Assunção parece não poder confiar em ninguém. Não há os porres alucinados com bandos de vagabundos como em On the road (“Pé na estrada”, Jack Kerouac), e o Howl (“Uivo”, Allen Ginsberg) não é mais o de companheiros de sofrimento, mas de um único lobo solitário. É o que tenta advertir em “Homem só” (p.51).

Mas essa solidão tem outra amplitude. A literatura parece um lugar igualmente suspeito para Assunção. Dessa concepção surgem duas práticas poéticas. Por um lado, a canção penetra intimamente a forma dos poemas, que se tornam estranhos, com uma rítmica vagamente reconhecível (o lugar ambíguo entre a poesia e a música é anunciado no poema “Orfeu no quinto dos infernos”, p.48-9, assim como a relação com a penúria com que o poeta se encontrou em seu estado espiritual). As palavras nem sempre são ordenadas segundo as suas concretudes, mas segundo ordenamentos típicos da construção cancional: abundam as aliterações, e as estruturas rítmicas fixas se camuflam sob a aparência dos longos versos, ou dos falsos enjambements.

Por outro lado, a própria história da literatura não é levada a sério. É como se ela não merecesse ser levada a sério. A mitologia grega aparece levianamente em seus poemas, que não querem respeitar esta tradição e deixar seu conteúdo intacto. O seu “Ulisses na tormenta” (p.45) não sabe conduzir seu navio, o seu “Orfeu no quinto dos infernos” não lida mais com Eurídice (as “palavras mortas”, p.49). O poema que fecha seu livro, “A origem do mundo” (pp.101-3), faz tábula rasa de toda a história da poesia. Nada importa, “sem isso, nem isso / esse poema / : o fim e o início.”

Esta situação de eterno-retorno da chacina, a generalização da guerra dentro e fora de todos, é o que gera a voz paranoica deste livro de Assunção, que não pode confiar não só em ninguém, como em nenhuma época de redenção. O fim das utopias é representado não apenas pelo desaparecimento da terra prometida da poesia política, como também pela impossibilidade de epifanias de experiências verdadeiramente felizes, ou duradouramente prazerosas e agradáveis. Por isso a imagem mais forte da felicidade em A Voz do Ventríloquo é a da “Vida em tecnicolor”, um sonho pálido de uma vida em lugar algum, em tempo algum, de substância alguma. Foi em outra vida a promessa de felicidade, que agora aparece apenas como uma antiga tecnologia de coloração. O terceiro poema da série aponta para a fragilidade dessa felicidade:

agora digo nada, a vida
que se vive agora, o relógio
marca as horas, clepsidra
que evapora, silêncio
nas bordas do tempo, escrita
perdida no espaço

(“A Vida em Tecnicolor III”, p.67)

Em Assunção, o modo de ser da vida se confunde com o modo de ser da guerra. Paulo Arantes, em seu artigo “Guerra sem névoa”, expôs a íntima relação entre a guerra e o nosso modo de reger as nossas vidas. Segundo o filósofo:

Se ainda fosse preciso expor mais uma vez o sistema de afinidades eletivas que comanda a evolução conjunta da máquina de guerra americana e a afluência do consumo de massa que a legitima, e vice-versa, pois na base da prosperidade material, o público podia divisar igualmente o combustível do terror nuclear, bastaria um estudo de caso a respeito dessa espantosa continuidade entre as duas mobilizações: a das bombas e seus vetores e a da sociedade motorizada. Nunca é demais lembrar a propósito que a fábrica taylorista é contemporânea da guerra civil americana e que os soldados americanos reencontraram a linha de montagem fordista nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. (…) [A transformação da guerra] viria com a revolução nos assuntos militares durante os anos McNamara à frente do Departamento de Defesa, exponenciada pelo management científico da Guerra do Vietnã, sem falar na proliferação dos think tanks recheados por uma nova espécie de intelectuais, responsáveis por um também novo discurso da guerra, cuja sintaxe se resumia a uma combinação de teoria dos jogos e suas supostas decisões racionais, mais análise de sistemas, tudo sob a rubrica geral dos assim chamados estudos operacionais. Embalavam todos a miragem fatal de uma guerra sem fricção.

(em http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=10486)

Ademir Assunção parece estar ciente dessa fina sintonia. Guerra e vida se misturam em seus poemas. A guerra sem fricção de nossos tempos removeu a névoa que a separava de nossos hábitos mais diários, como abastecer o automóvel. Carl von Clausewitz sentenciou a máxima de que a guerra seria a continuação da política por outros meios. Nos poemas de Assunção, a vida e a guerra são um só meio pelo qual a humanidade constrói a sua história. Em “O triunfo do general Mandíbula” (pp.15-6), escreve:

o caos ecoa nas ruínas,
escuras esquinas do inferno, pompeia,
são paulo, istambul, atenas, a moda
do outono é a decadência do inverno,
dizem que os profetas só predizem
desatinos, pássaros tenebrosos nublam
presságios, o cacto rubro desconhece
a flor do destino, é no silêncio
que os banqueiros multiplicam seus
ágios, quebram-se dentes, racham
mandíbulas, ossos estalam nas tumbas,
o vento varre os edifícios da cidade,
baleias destroçam submarinos, bruxos
eslavos rasuram signos mágicos, otários
neochics imitam macacos, cadelas
burguesas tomam no rabo, hackers
detonam a musa da TV a cabo, nada faz
sentido nessa névoa de bosta, lama
espessa subindo ao pescoço

Não sabemos se Assunção está falando da guerra, de um momento anterior ou posterior a ela, ou se de nossas vidas. Mas talvez esses momentos não existam em Assunção. A vida é luta sangrenta, carnificina. E quem se distrai acorda com o supercílio rasgado. O poema “Videogame” (p.20) capta essa fusão de vida-guerra-arte. O videogame poderia ser definido como a arte total, mas também como a vida total e, por vezes, a guerra total. O poema mimetiza a voz de uma criança: “quem vai sentir falta / dessas baratas? (…) / e que se fodam / todos los hermanos, cambada / de terroristas islâmicos, / papai me disse que eles comem / gente”. O interessante neste poema não é a suposta denúncia de uma criança alienada; mas a fina percepção da ausência de limites entre as supostas “esferas autônomas” da vida.

A Voz do Ventríloquo não é um livro de poemas. Não é um livro de concreção das palavras. Elas se esvaziam de sentido e de peso rapidamente. Tornou-se impossível compor poemas após as grandes guerras. “Na cova dos leões” (p.21) adverte: “e no nono dia fez-se o verbo, e o verbo / virou verborragia, palavras inúteis, / sílabas apenas sílabas, letras, / desenhos, grafias”. É a visão de mundo barroca da morte das coisas (ou da morte de Deus): a perda do sentido que uma palavra possuía, de um peso específico, o que a libera de seus significados últimos para estar aberta aos significados múltiplos, todos vazios. Por isso tantas palavras, e não apenas a precisa, não apenas a última. Todas as palavras estão abertas a muitas outras. Este não é um livro de precisão. O ventríloquo fala como se não dissesse, como se fosse outro, ou como se a voz viesse de outro lugar. A voz já não lhe pertence, embora lhe pertença totalmente: o ventríloquo diz a própria voz. Por isso ela está leve, sem peso, não se agarra às coisas. E o que destruiu toda a garganta e a boca de Assunção foi este início de século XXI, que se cria sem história, e que inventou formas de destruição inimagináveis, agora denominadas de “guerra limpa”.

No século XX, Carl Jung havia apontado para os elementos de antecipação que a arte possui. Para ele, a arte capta intuitivamente as orientações futuras da consciência geral. Assim teria dito que o Expressionismo antecipara o niilismo dos médicos, o que teria dado origem posteriormente ao interesse gradativo pelo psíquico, em detrimento do corpo biológico (a poesia do alemão Gottfried Benn seria pioneira neste caso). Esta intuição nada tem de mediúnica no sentido sobrenatural: ela diz respeito a processos que se elaboram antes, na inconsciência, e que só tardiamente se manifestam de maneira mais explícita. Em que medida essa teoria de Jung se mostra fértil para a compreensão da arte, é ainda uma questão em aberto. Mas o fato é que o livro de Assunção parece ter previsto algumas coisas. Quem poderia dizer, mesmo nos anos de 2011 e 2012, que “a agência do bradesco arde / em chamas” e que “punks desfilam nas ruas / de copacabana”? Muitos versos deste livro ganharam uma nova iluminação nos rumos do país este ano. Algo já se elaborava, e isso demonstra que há ainda alguns elementos em A Voz do Ventríloquo que nos dizem respeito.

Para Ademir Assunção, a chacina não tem fim. O que a perpetua? As profecias ensinam; mas o que fazer com o nosso tempo, que não é mais dado a respostas? Um dos poemas que abre o livro, anuncia, hermético, seu tom profético, com menções secretas ao nosso tempo sem história e sem respostas:

relógios
praticam saltos ornamentais em piscinas
vazias, neve ao redor dos cabelos, chove
na terra inteira, dedos de açúcar tocam
a escama dos peixes, o corpo todo presente
a presença de um deus, e você finalmente encara
o úmido olho azul do mistério