O QUE TEM FEITO, RENATO REZENDE?

por Heyk Pimenta

foto de Luciana Lopes

foto de Luciana Lopes

 

“Não tenho escrito muito. E muito menos ainda poesia. Acho que poesia é coisa de mulher. E agora sou um homem. Um homem que envelhece. Pelo menos, por ora.”

Essa foi a resposta de Renato Rezende à pergunta da Oficina. A sessão “O que tem feito?” trará notícias e poemas recentes de autores que já passaram pelas nossas sabatinas. Poeta, crítico, curador, tradutor e romancista paulistano, Renato ganhou duas vezes o Prêmio Biblioteca Nacional com os livros Passeio (Record, 2001) e Ímpar (Lamparina, 2005), depois de ter passado pela Índia, Estados Unidos e se fixado no Rio de Janeiro ainda nos anos 1990.

O poeta investe seus saberes há alguns anos nas artes plásticas, publicando, escrevendo e por vezes sendo ele também artista, como é possível ver em obras como My heart in RioS.O.S Poesia. Inaugurador do termo “poesia em campo ampliado”, adaptado da máxima de Rosalind Kraus “escultura em campo expandido”, Renato apaga as fronteiras entre escrita, arte e vida se tornando um dos mais versáteis e polêmicos pensadores brasileiros. A oficina estudou o livro Noiva (Azougue, 2008) em 2013, que você pode baixar clicando aqui. Ficamos agora com três poemas inéditos do autor, que, depois de ter sido noiva, louvando o entre-lugar de quem espera, agora enuncia-se homem. 

 

MONSTRO

Não importa se na forma de um poema ou não.

Ou importa?

O conteúdo é a forma?

Viver a alteridade radical – ser um outro
foi o desejo da minha aventura humana. Hoje

eu mesmo sou o Outro.

Aventuro-me a ser esse Outro, quem sou:

cedo às exigências que sobem do meu corpo;
respondo ao que considero ser
as demandas das minhas entranhas;
preencho-me de minha própria história, como se ela desse a forma

do que desde sempre fui e sou.

Sólido e denso agora

como um touro obedeço
ao que está escrito

na carne dos mamíferos

nos astros?

Engordo e envelheço
como todos os porcos, como todos os bichos.

 


 

AMÊNDOA

a ferida cicatrizada forma um caroço
que se guarda no corpo
como um troço na garganta

incomodando

sem conseguir ser cuspido: um cancro

uma amêndoa apodrecida

escura por dentro,
meio esterco

coisa suja orgânica
catarro, coriza
sangue de chouriço

um banzo

fruto dos fracassos a serem transmutados

contra a velhice

a mística
a escrita

não valem nada

esse topázio,

essa granada.

 


 

TEMPO DE SATURNO

Mais uma vez – a terceira ou quarta em quase cinquenta anos
de vida ganha e perdida neste planeta, procurando ao mesmo tempo alçar voo
e deitar raízes,
adaptar-me, ganhar forma e sentido, como um pássaro
de outro continente,
ferido, perdido
em pânico,
entre exitoso e falho
me emociono diante da Fontana di Trevi:

Fonte de águas claras, e fonte de lágrimas
nos olhos do meu rosto.

Quase cinquenta anos – e o velho
e novo Netuno, como se fosse eterno, no entanto,
como em nenhum outro lugar
no espelho cego
no espelho cego de tão iluminado, dessa fonte
acena ainda com suas promessas de amores.

Do outro lado, do outro lado da fonte, do muro, do outro lado de Roma, está o Paraíso.
Mas lá não há nada. Sei que seus portais jamais se abrirão. Apenas

uma emoção que eu ainda desconheço, plantada na minha carne,
como uma saudade de mim mesmo;
(eu, que desconheço quem ou o que sou, e que nunca saberei.
Eu, que um dia talvez tenha sido, sem sabê-lo, sem ser nunca quem era.)

Netuno na fonte suspira o aceno da redenção,
com suas Vênus e Afrodites, algumas encarnadas
em minha vida, e por elas agradeço e sorrio, e triste
sem saber por que, sem me dar conta, entre discretas águas, nomeio
todas as mulheres que amei, todos os encontros que sempre foram promessas
e porque apenas promessas, encontros infinitos

na Fontana di Trevi, num trem de Florença a Montepulciano, numa excursão ao Vesúvio,
diante da bancada de peixes da feira de Laranjeiras,
num refrigerador às 3 horas da madrugada num mosteiro no interior do estado de Nova York,
numa encruzilhada de jardim na Índia,
no pátio de uma escola num bairro de classe média de São Paulo há 40 anos,
na porta de um teatro alternativo de Curitiba,
na cafeteria do Museu de Arte Moderna de São Francisco…

Agora sei que o máximo a nós permitido é apenas isso: contemplá-lo
na forma de Netuno emergindo dos oceanos, jorrando as águas cristalinas
e afrodisíacas, absinto, ambrosia, exigindo
de nossos pobres corpos e mentes que envelheçam com comedimento
nossos pobres, glorificados corpos perdidos nas fronhas do tempo,
para sempre deste lado do paraíso
na grande e pequena plataforma do possível.

Mas para chegar aos cinquenta deve-se muito a Cronos, e nesse mesmo dia
de que é feito a vida no planeta, em giros
e em meio as ruínas do Fórum romano
o que restou do templo de Saturno me diz algo sobre fantasia
e sobre o corpo das meninas
que como alegoria se transfere para toda metafísica,
e sem rimas ou floreios,
sem metáforas, sem rodeios, sem poesia:
quando enfim metemos a língua em seus orifícios
o gosto é sempre o mesmo.

Templo de Saturno, de joelhos, humilde:
peço-lhe apenas as bênçãos para viver aqui,
envelhecendo com um mínimo de bom senso.

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