3 POEMAS | LIV LAGERBLAD

por Heyk Pimenta

Liv Lagerblad é carioca, artista visual e poeta. Passou a fazer parte da oficina nesse ano, contribuindo com os debates e conduzindo exercícios de criação. Produtora voraz, a artista diz escrever para organizar a vida. Um poema para começar o dia, assim ela faz. As coisas encontram seus lugares e ela segue. Liv estreou nos livros no ano passado, publicando 10 poemas em edição artesanal pela coleção Kraft, da Editora Cozinha Experimental. Lançamos juntos os livros no dia do seu aniversário. Como ela disse, é bom ter irmãos de começo. A editora campineira Urutau prepara um segundo volume dos poemas da poeta, ainda para esse ano. Conheça três dos seus poemas.

deixe-me ir,  preciso andar

abre uma clareira entre as árvores

rebenta um galho e cai no meio da clareira

apontando para o norte

os jornais de direita parecem amistosos

com um governo de esquerda, agora

ele me fala do capital intacto, que dó.

Tínhamos que sangrar o capital com navalhas

e seu sangue de imenso porco

tinha que escorrer pelas ruas, e nas ladeiras

assim como no dia do acidente de ônibus

em que um motorista passou pela rua itaperu

a duzentos quilômetros por hora e tombou

no hospital não se podia andar na rampa

o calçado deslizava no sangue

assim queria o capital

era assim que você veria:

um porco imenso de sangue prata

 

à nossa mesa – sangrando vil metal

**

XXX

quero datilografar o impossível em tua máquina-corpo

quando dedilhas o ar ou meu corpo funcionando em tua

máquina-corpo : viva os meios todos porque hoje amor

eu sonhei com você de novo. era grotesco mas era doce

esse nosso meio de percurso – brusco o começo – estive

fora. um vazio com olhos. depois dentro. oco enevoado

vivia no arcabouço  de  minhas imagens e sentidos e lá

você não habitava – como antes e depois – meu mundo

queria ter te dito essa manhã que a tradução do poema

de mandelstam eu li e não gostei, falava do stalin com:

“brinca com os serviços de meio-homem” e repeti isso

em sequência, até fazer sentido. hoje sonhei com você

e depois discutimos ao telefone. e no meu silêncio me

ocorreu chamar-te meio-homem pra te emputecer mas

você nunca leu esse poema ou o leu faz muito… talvez

você tenha lido outra tradução desse poema, e sei que

meu tiro iria sair mal, não iria surtir o efeito desejado

o que eu pretendia, quando imaginei dizer e não disse.

Xxx

**

microcena permutável:

você diz:

1 – “a mão é o novo centro do corpo”

2 – “o centro do corpo é sempre o sexo”

3 – “é preciso dissolver os centros”

eu olho:

1 – uma revista nova

2 – um maço de marlboro vermelho

3 – teus olhos. (piscam e lacrimejam de cansaço)

você diz:

1 – “a arte foge à praxis vital”

2 – “a instituição arte é uma sanguessuga de intuições”

3 – “por trás do olho é tudo mais sólido agora”

eu digo:

1 – “tamanha a flacidez da mente, nesses tempos em que me sinto na engorda, antes do abatedouro”

2 – “antes de tudo temos de definir parâmetros, estou armada com minhas dúvidas”

3 – “só consigo entender isso se filtrar cada palavra com a minha violência”