O QUE TEM FEITO, PEDRO ROCHA?

por Heyk Pimenta

pedro rocha

“Heyk, o computador tá um pouco confuso pra organizar os poemas, me passa seu endereço e envio pra você pelo correio.” Gostei. Receberia uma carta de um poeta que mora na mesma cidade que eu. Chegou, mas não pelo correio. Pedro levou os poemas em um envelope ao morro da Conceição no último sábado, falaríamos poemas n’A Mesa. “Heyk, o correio me mandou entregar pessoalmente. As filas estão imensas, porque, segundo disseram, agora tudo se faz no correio.” O envelope tinha meu endereço e o dele. Três folhas datilografadas e carimbadas, três poemas, um deles batido só com as teclas da máquina, com força, sem tinta, cada letra marcando e quase furando o papel.

“Quer mexer com o espaço branco do poema? Procura o Pedro Rocha!” Me disse o Guilherme Zarvos em 2007. Pouco depois vi o livro 11, estreia do Pedro, de 2002, na Azougue Editorial. E pedi um exemplar ao Sergio Cohn. Desde então, nos encontramos por aí, pensando, confabulando, achando bonito. Veio Chão inquieto (7letras, 2010), ele e Ericson tinham lançado seus livros juntos. Ericson. Experiência do calor (Lábia gentil, 2014) corre por dentro dessa morte, que Pedro e muitos outros sentiram na pele.

Figura histórica da primeira fase do CEP 20.000, o poeta manda correspondência, gira mimeógrafo, bate máquina, fez a Cartonera Caraatapa e também edita, junto com Pedro Lago, o selo Lábia Gentil, da editora Dantes.

Fique com três poemas e os respectivos comentários do próprio autor sobre cada um deles.Um dos poemas foi um pequeno terrorismo feito no instagram; outro, se transforma, traduzindo-se, em poema objeto; e o último, o tal feito só com a força, sem a tinta, glosa sobre quando o poeta percebe que algumas coisas o poema não salva. No fim, sem responder à pergunta, Pedro contou, com poemas e parênteses, o que tem feito.

Ação sem título

Um Poema

cabe

abre

invade

qualquer plataforma

pois é ele quem se suporta

ele se apóia em

toda superfície

e mesmo em

nenhuma

Quanto mais estranha

o poema aranha

tece sua

web

quão maior o

avesso

o poema atravessa

como nessa

fresta de possível

Tá tudo indo

do jeito que dá

mas ele está sempre ali

ele tá lá

pode ser duro de

abrir

mas é a única parada

que não vale

a pena de

desistir.

(esse poema foi publicado como comentário em algumas fotos de algumas contas do instagram. Eu ia distribuindo os versos, de baixo pra cima, cada um numa foto, para que ficasse inteiro na aba de alerta para o titular da conta.

Fiz isso até que o instagram me mandou uma mensagem avisando que eu não poderia continuar com a minha pesquisa, brincadeira, experimentação, ação… mas tá lá, nalgumas fotos, muitas…)

PALEANTROPÍDEOS & FUTURISMO

Gostaria de que

quando for que

eu morrer

 

meus amigos me peguem

meus restos

e constru-

am

um

objeto com

eles

que meus ossos sejam

material de imagem

e que fosse isso cedo

(esse poema está, nesse momento, tentando resolver um problema de comunicação e de linguagem e de continuação. Alguns amigos poetas se dispuseram à tarefa de traduzi-lo para seus idiomas estrangeiros, tentando guardar o problema, conversar a dificuldade de pôr na norma um pensamento objeto. O pensamento é antes de ser texto, um objeto prenhe de subjetividade)

aquele corpo

calado

O MAR POR DENTRO

aquele      cacto

O MAR POR DENTRO

vamos à praia criança

O MAR POR DENTRO

deitado à beira mar

O MAR POR DENTRO

a mão de onda tenta

ainda

despertar o menino

O MAR POR DENTRO

passa-lhe suave pelo

corpo

O MAR POR DENTRO

seus trejeitos de

água

despertá-lo de onde?

a onda não sabe

O MAR DENTRO

(esse poema forçoso, tentando ser algum fazer diante de um mundo de geste em deslocamento. Tentando estender uma mão, criar um trecho de terra, de ajuda, de qualquer coisa, gesto, justo, junto… e não conseguindo!

Não há como resolver algumas coisas num poema, ou me sentiria muito estranho, construindo, escrevendo um bom poema motivado por essa realidade.

Fica algo que não sei nomear. O esforço. A incompetência. Constatação.

O pouco que parece. Esse poeta não serve pra tudo.)