PEQUENA CRÍTICA | EXERCÍCIO SOBRE “TRÊS SEMBLANTES” DE LUCAS MATOS

por Cláudio Medeiros

© Rômulo Queiroz

© Rômulo Queiroz

Lucas Matos faz da dívida o princípio que rege a órbita da vida e atrela corpo e mundo a expectativas – indevidas – implicadas nas relações de crédito. “Todos estão em dívida (…). Não há quem não deva, não há quem não tema”. Porque as palavras compram e vendem, o que significa que o sentido é um pacto que elas fecham entre si, um compromisso que dividem segundo um tipo específico de divisão social do trabalho.

A divisão do trabalho reduz cada palavra a não ser outra coisa senão parte, porção atômica indistinta do todo. Da necessidade recíproca que enreda uma palavra em outra, nascerá o sentido. Este terá por base um sistema de compensação, quer dizer, cada palavra é estritamente entrelaçada nas outras pela força da necessidade, uma cadeia de individualidades cujo sentido da parte depende da conjunção com o entorno.

É justamente sob esses termos que “o que existe são textos, línguas são ficções.” O que existe é a divisão do trabalho do sentido ou, o que acaba sendo equivalente, o texto no domínio por ele inaugurado.

peço que os loucos se sentem à esquerda e os sãos se sentem à direita de quem sofre de depressão quem é bipolar peço a você caro sol meu bom e velho amigo se deite para que os que têm saúde pisem e mantenham pés secos sapatos limpos peço que os jovens e magros se façam macios para os joelhos gigantes dos velhos obesos pois é preciso separar o joio do trigo o canhoto do destro e se o sobrinho da noiva sentar no mesmo banco da máfia da família do noivo ou se um velho descansar ao lado de um jovem eles o levarão abaixo (…)

O que nos resta ao tentar satisfazer algum aspecto de Três semblantes é aceitar suas cartas do jogo, é adotar seu funcionamento maquínico, sua forma de manuseio. Não há quem o descodifique, não existe fatiar o corpo do texto tanto quanto nos pareça proporcional ao tamanho da dívida. Existe um lugar onde chego – que não é senão a familiaridade com a qual me aproprio das maneiras de utilizá-lo –, uma terra de possibilidades cartografadas pelo poeta. Logo, referir-se ao texto não para repetir à exaustão o já dito por ele, mas falar sobre o porquê Três semblantes nos proporciona certa liberação da malha sedimentada de sintaxes maternas.

O texto existe como o perspicillum de Galileu, instituindo um horizonte inédito de estrelas fixas. É o que queremos designar quando dizemos que ele inaugura um domínio. Já as “línguas são ficções”, e de duas maneiras correlatas.

Primeiro porque habitamos a clareira do ser, e nos vemos jogados numa relação de pastoreio com as coisas, à medida que é pelo verbo que o mundo nos vem ao encontro. O mais importante: deve-se por essa via admitir que toda abertura ontológica convive com uma retração – em outras palavras, que a clareira implica a retração simultânea de um horizonte de manifestação sobre o qual o poeta só pode calar.

Línguas podem ser ficções em outro sentido. Como, por exemplo, quando nos dizem ser o eu uma sorte de função gramatical – uma ficção canonizada –, tal como o aqui, o agora, que só exercem seus papéis porque ocupam espaços vazios no interior dos quais o impessoal empunha o verbo na língua. Daí o poeta escrever a história de marianne k. É sobre e não para marianne k. que é feita a pergunta sobre saber “distinguir as frases: ‘vou te mandar a real?’ e ‘vou te mandar uns reais?’”

Marianne K. é Rosebud, é a diferença, o devir inarticulável, a dimensão da totalidade cuja vocação é não se deixar individuar pela fúria do sentido. Ela irrompe no texto sempre que urge algum excesso impossível de ser contido: “marianne k. se chama marianne k. porque antes dela vieram: marianne a., marianne b., marianne c., assim por diante?” Ou:

ele espera marianne k. há trinta minutos

olha o relógio e três minutos se passaram

ele espera marianne k. há trinta e três minutos

marianne k. não chega e a saudade não chega

a noite não chega e o dinheiro não chega

ele espera marianne k. e olha o relógio

nenhum minuto passou

ele espera marianne k. e só

É marianne k. uma sorte de lembrete quanto ao desencanto ante o caráter representativo do texto (por exemplo, diz o poeta, sem esperar receber resposta alguma: “a senhora pode me explicar o que é isso?”). Mas ela é sobretudo positividade, é a pastora desses intertícios textuais chamados poemas, que proporcionam à língua vínculos originários de semelhança e similitude. Dos vínculos de semelhança e similitude, ou seja, dessa rede significante que não cansa de capitanear para si um domínio que reclama por autonomia emerge a obra. E tal como as palavras tramam entre si um sistema de necessidade que denominamos divisão do trabalho do sentido, também a obra que daí emerge pode ser prontamente equiparada à imagem de uma sociedade civil. Em seu seio o trabalho e o produto do trabalho são repartidos entre diversos artesãos e operários. Cada homem é comprador e vendedor,credor e devedor, simultaneamente, tal como as palavras na ordem do texto. De fato, “só a dívida nos une”. Mas que então pensemos com Nietzsche: “o grande conceito moral de ‘culpa’, ele diz, teve origem no conceito muito material de ‘dívida’”, na relação de direito privado entre credor e devedor, que remete a formas básicas de compra, venda, comércio, tráfico etc. (se, nessa direção, ensaiássemos um último malabarismo conceitual a fim de nos apropriarmos de algum aspecto do funcionamento de Três semblantes, talvez terminássemos a piada mesmo ninguém achando graça)

galopo a dívida galopante

devo como se deve e cada vez mais

de modo devido em dívida

já não posso pagar

imposto

já não posso pagar

centavo

já não posso pagar

peitinho

todo meu corpo alguém emprestou

e peço mais e devo mais

(…)

o país mais rico do mundo não bastava

para saldar

No crédito bancário, o capital se metamorfoseia em dinheiro e, por meio da circulação, exerce por um lado a função mercantil de aquecer o consumo, por outro “cria valor” na dinâmica da especulação da agiotagem. O juro em questão é um “lucro” que não deixou atrás de si rastros de mercadoria. Um capital parasita, sem dúvida, criação contábil do chamado “capital fictício”, que transita nos circuitos das instituições de especulação com o fim exclusivo de “valorizar-se”.

olha eu não sei te dizer como

olha eu não sei como te dizer

nos últimos meses eu recebi cartas

(…)

cartas não muito sucintas

cartas não muito extensas

os meses passando

nos últimos meses eu recebi cartas

uma atrás da outra

Quer dizer, você não precisa ter em espécie para consumir. O crédito (e pistis, em grego, é termo utilizado pelos apóstolos para designar “fé”; creditum é o particípio passado do verbo latino credere: é aquilo em que cremos, em que depositamos nossa fé, diz Agamben) é a antecipação de um dinheiro virtual, cuja transação implica a de que esse dinheiro existe, e de que em breve você per se produzirá valor, sabendo que o credor virá resgatar a quantia líquida acrescida dos juros. Contraio, no entanto, empréstimos a juros de agiotas estrangeiros que são invisíveis, porque, na real, inexistem como pessoa física. Credores que não falam minha língua, mas que são hábeis nos sacramentos do culto ao deus universal, o dinheiro.

Mas não se trata tanto de dívida aqui, e sim de “dívidas mais rápidas que meus olhos”, “dívidas galopantes”, cartas que chegam “uma atrás da outra”,     você que, queira ou não, “sempre paga o que deve”, de uma maneira ou de outra, com imposto ou com peitinho. Importa pouco o consumo, é do homem consumir aquilo que toca. Interessa a dívida derivada da transação que no lugar de saldar o juro, sustenta não só a mesa do agiota, como provê uma ética do consumo. Alguém diria, eis um atributo constititutivo do sistema de crédito: juros que “o país mais rico do mundo não bastava para saldar”; ética do consumo a qual melhor caberia chamarmos de lei do consumo. Nietzsche pensa: “apenas o que não cessa de causar dor fica na memória”, logo a memória da lei em questão não passa por contratos mas cicatrizes.

ninguém vai te amar

tanto quanto o seu credor

o pai já não sabe quem é

o cachorro morreu

o filho mordeu os amigos

e quando ele sai para

passear com o bicho

sente a corda apertar

em torno do pescoço

é o teu nome

que ele sussurra

com teu nome

que ele engasga

Poderia o sofrimento ser compensação para o resgate da dívida? Ou, nos termos do genealogista, pode a culpa ser compensação para saldar a culpa? Se dissermos que não há lugar pra expiação da culpa no capitalismo, teríamos o dever de admitir um masoquismo estrutural do homem. O certo é que erige-se um verdadeiro deus do conceito moral de culpa, e que na forma burguesa de fruição da vida, a culpa cristã, culpa esta que deriva do ódio à vida, passou a ser calculada em termos de dívida.