NOTA DOMINICAL | SOBRE “ÚLTIMO ROUND”, DE JULIO CORTÁZAR

por Guilherme Gonçalves
Cortázar
A descoberta de Cortázar transformou profundamente minha percepção da literatura. Antes, esta me parecia um refúgio em que nos seria dado estar por algum tempo seguros para sustentar o olhar sobre os fantasmas do desejo e do horror, como se não estivessem aqui. Compreendi que a literatura – essa história toda feita de acidentes, amor e suicídio – dedica-se ao cuidado dos fantasmas que sobrevivem ao sono, dando-lhes corpo e nome, para que nos sintamos, como eles, reais.

A máquina literária sul-americana – que García Márquez remonta aos diários de Colombo e Lévi-Strauss às narrativas indígenas – não poderia ser senão fantástica, tendo a tragédia como fundo, o tempo e a experiência como matérias. O fantástico não é o sobrenatural, em que forças ocultas governam o mundo, e menos o maravilhoso, onde o bem e o sentido triunfam sobre a orfandade, como no país a que mandamos os bem-nascidos até que lhes acene a morte, o desejo, os sanguíneos vazamentos e ereções. O fantástico nasce do deslocamento de foco ou atenção que torna o familiar incógnito, quando os fantasmas são todo o real, o tempo descarrilha e não se pode acordar do sem sentido cruzando depressa corredores escuros da consciência. Em Del conto breve y sus arrededores, os contos são comparados a produtos neuróticos, pesadelos, alucinações neutralizadas mediante a objetivação e o translado a um meio exterior ao terreno neurótico. Como a experiência, o fantástico se faz da matéria dos pesadelos, nos quais nada ocorre como se deseja, ou ocorre, lamentavelmente.

Último round (volume I), publicado em 1969, apresenta-se como um almanaque em que figuram contos, poemas, notas de jornal, ensaios, fotografias, colagens. O tom descritivo, alternando entre o diário e o jornalístico, e o pastiche de informações verídicas, por assim dizer, cobrem de realismo os enunciados. No entanto, a cada linha, tem-se a sensação de que denunciam o próprio engano, como se transcritos por um traidor que infiltra sinais em acrósticos, mandalas, manchas de mata-borrão. É o seu roteiro que devemos seguir. Em Descripción de un combate o a buen entendedor, tem-se a descrição técnica da derrota do campeão cordovês de boxe Juan Yepes, pela qual o leitor atento pode supor tratar-se de uma luta comprada, apesar de o narrador não levantar suspeita neste sentido, salvo no subtítulo do conto e no fato de que apenas um lutador é citado. Em Los testigos, o narrador angustia-se pela descoberta de uma mosca que voa de bruços, ciente de que ninguém o creria. Toda a obra é atravessada pela tensão entre o que o se deve ter como verdade  de acordo com os homens sérios da economia, dos jornais, da ciência – e o que lhe opõem os sentidos e a observação.

Como o monge copista de O nome da rosa, de Umberto Eco, o realismo mágico segreda-nos o livro do riso entranhado nos labirintos de uma biblioteca de luto cujo feitiço é levar-nos sempre mais para dentro. Muitos perderam a vista correndo à vela as estantes dessa Babel. Mas o escriba fez passar as páginas envenenadas antes da noite branca e lá ficou, porque era tarde, e os cronópios riscaram o asfalto e saltaram às casas do céu e do inferno, para ter com o ordinário dos fantasmas, o impossível, a vida mesma.

Os poemas abaixo integram o primeiro volume da obra e foram traduzidos por mim para o português.

 

El marfil de la torre

“En el año 1959, los Estados Unidos obtuvieron en América Latina 775 millones de dólares de beneficios por concepto de inversiones privadas, de los cuales reinvirtieron 200 y guardaron 575.”

(De un acta oficial de la UNCTAD,
Conferencia de Nueva Delhi, 1968)

SIN EMBARGO
el escritor latinoamericano
debe escribir tan sólo

lo que su vocación le dicte

sin entrar en cuestiones
que son de la exclusiva competencia
de los economistas.

Casi nadie va a sacarlo de sus casillas

El caballo relincha, el perro ladra,
la suma de los ángulos de un triángulo
es igual a dos rectos,
la sopa, la conciencia, el alcaucil, después
del dos el tres, después del hoy, mañana,
casi nadie lo sacará de sus casillas.
Casi nadie ni nada, porque
¿cómo tomar en serio esos latidos
en que el sueño es acceso, esas miradas
de insoportable lucidez en un tranvía,
eso que ahora dice: Huye,
pero al final, al fin y al cabo, no era más
que un gajo de naranja
reventando en la boca?
¿Cómo tomar en serio que una puerta
dé a la tristeza cuando el arquitecto
la abre al pasillo, que unos senos
dibujen paralelos sus jardines
cuando es la hora de ir a la oficina?
Imposible negar las evidencias
dice el doctor y dice bien, inútil
sacar de sus casillas al honesto almanaque,
San Rulfo, Santa Tecla, San Fermín,
La Asunción,
el caballo relincha, el perro ladra,
casi nadie le ofrece en una esquina
un pedacito suelto de bicicleta o trompo,
casi nunca es verano en pleno invierno
por razones de estricta pulimentada lógica,
hay que ser lo que es o no ser nada, y nada
lo sacará de sus casillas, nadie
lo sacará, y si un caballo ladra
no lo sabremos nunca, porque
los caballos no ladran.
Bastaría un apenas, un no quiero,
para empezar de otra manera el día,
hervir la radio con las papas
y a cada chico darle un cocodrilo
para que huela a miedo en las escuelas,
sacar los muertos a que tomen aire,
meter las mitras en la mayonesa,
actividades subversivas, claro,
pero otras cosas hay: fusiles
corren por las picadas, Sudamérica
crece en su selva hacia la aurora,
de tanto arroz bañado en sangre
nacerá otra manera de ser hombre.
no cito más que apenas estas cosas,
saco de sus casillas a unos cuantos
que todavía creen en la poesía
encasillada en su vocabulario
lleno de compromisos con lo abstracto.
(La suma de los ángulos de un triángulo).
((Los caballos no ladran)).
(((Dice el doctor, y dice bien))).


El marfil de la torre

“En el año 1959, los Estados Unidos obtuvieron en América Latina 775 millones de dólares de beneficios por concepto de inversiones privadas, de los cuales reinvirtieron 200 y guardaron 575.”

(De un acta oficial de la UNCTAD,
Conferencia de Nueva Delhi, 1968)

NO ENTANTO
o escritor latino-americano
deve escrever só

o que sua vocação lhe dita

sem entrar em questões
que são da exclusiva competência
dos economistas

Quase ninguém vai tirá-lo do sério

O cavalo relincha, o cão ladra,
a soma dos ângulos de um triângulo
é igual a dois retos,
a sopa, a consciência, a alcachofra, depois
do dois o três, depois do hoje, amanhã
quase ninguém vai tirá-lo do sério.

Quase nada nem ninguém, porque
como tomar a sério esses latidos
nos quais o sonho é acesso, esses olhares
de insuportável lucidez em um bonde
isso que agora disse: Foge,
mas afinal, ao fim e ao cabo, não era mais
que um gomo de laranja
estourando na boca?

Como tomar a sério que uma porta
dê para a tristeza quando o arquiteto
a projeta ao corredor, que uns seios desenhem paralelos seus jardins
quando é hora de ir à oficina?
impossível negar as evidências
disse o doutor e disse bem, inútil
tirar do sério o honesto calendário,
San Rulfo, Santa Tecla, San Fermín,
La Asunción,
o cavalo relincha, o cão ladra
quase ninguém lhe oferece em uma esquina
um pedacinho solto de bicicleta ou pião,
quase nunca é verão em pleno inverno
por razões de estrita e polida lógica,
há que ser o que é ou não ser nada,
e nada o tirará do sério, e ninguém
o tirará, e se um cavalo ladra não saberemos nunca, porque
os cavalos não ladram.

Bastaria um apenas, um “não quero”
para começar de outra maneira o dia,
Ferver o rádio com as batatas
e a cada criança dar um crocodilo
para que cheire a medo nas escolas,
Tirar os mortos para que tomem ar,
meter as mitras na maionese,
atividades subversivas, claro
mas outras coisas hão: fuzis
correm pelos piques, América do Sul
cresce em sua selva até a aurora,
de tanto arroz banhado em sangue
nascerá outra maneira de ser homem.

Não cito mais que apenas estas coisas,
tiro do sério a uns tantos
que ainda crêem na poesia
metida em seu vocabulário
cheio de compromissos com o abstrato
(A soma dos ângulos de um triângulo).
((Os cavalos não ladram)).
(((Disse o doutor, e disse bem))).