NOTA DOMINICAL | A CANÇÃO: NOTA SOBRE “A MULHER DO FIM DO MUNDO”, DE ELZA SOARES

por Vinicius Melo

 

Em 1º de outubro de 2015, Elza Soares lançou o álbum A mulher do fim do mundo [1]. Com canções assinadas por Alice Coutinho, Romulo Fróes, Douglas Germano, Kiko Dinucci, Celson Sim, Rodrigo Campos, Cacá Machado, Marcel Cabral, Clima, Alberto Tassinari, todas as canções são dela, Elza. Em 8 de dezembro de 1957, Billie Holiday foi ao ar pela CBS e compôs “Fine and mellow” [2]. Recebeu alguns músicos (era a única mulher na gravação) e compôs “Fine and mellow“. Quem assina este texto é homem e branco. A mulher negra morre muitas vezes.

O álbum abre com “Coração do mar”:
terra que ninguém conhece
permanece ao largo
e contém o próprio mundo
como hospedeiro

Navio humano quente, negreiro do mangue (woman is the nigger of the world, escreveu Yoko Ono, branca). Elza Soares retorna muitas vezes. No ano passado, escreveu em um texto para a Folha de São Paulo: “Além de ter sido um período muito difícil para o Brasil, a ditadura militar foi quando tive minha casa metralhada. Estávamos todos lá: eu, Garrincha e meus filhos. Os caras entraram, metralharam tudo e nunca soube o motivo.” [3]

Elza Soares retorna muitas vezes: canta o 180 (cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim), canta Benedita (Benedito não foi encontrado … ela leva o cartucho na teta, ela abre a navalha na boca, ela tem uma dupla caceta), a luz vermelha (bem que o anão me contou que o mundo vai terminar num poço cheio de merda), o tango, a gafieira (pra fuder).
meu choro não é nada além de carnaval
é lágrima de samba na ponta dos pés
a multidão avança como vendaval
me joga na avenida que não sei qualé
Morre e volta a canção.
eu sou e vou até o fim cantar
eu quero cantar até o fim
me deixem cantar até o fim
até o fim eu vou cantar
eu vou cantar até o fim
eu sou mulher do fim do mundo
eu vou cantar, me deixem cantar até o fim

 

A canção não cabe: liberdade é não sentir medo. A canção vaza: liberdade é não sentir medo. A canção atravessa o próprio fim (“imortalidade não é uma questão de mais ou menos tempo, não é uma questão de imortalidade, é uma questão de alguma outra coisa que continua desconhecida”, escreveu Marguerite Duras), contém o próprio mundo como hospedeiro. Acaba, revira-se: canta-se no chuveiro, canta-se com lata d’água na cabeça. Elza Soares nasceu e continua nascendo: ritmo, retorno, tempo que criamos e continuamos criando, não mais ou menos tempo, tempo insistência (“a vida é imortal enquanto vive, enquanto está em vida”, escreveu Marguerite Duras) [4].

(Quem assina este texto é homem e branco. A mulher negra morre muitas vezes. Há algumas semanas, enterrei minha vó. Anos atrás, não fui ao enterro da minha bisa. Não sabia: a bisa, negra, tinha morrido.

Você vestirá vestidos de ouro;

peles de prata, cobre e bronze.
O céu sobre sua cabeça mudará de sentido
sempre que você achar que compreende.
Você gastará uma vida desbastando camadas
de carne. A sombra das suas escamas
vai sempre restar. [5]
Vivas, elas sabiam.
Deve-se sempre realizar
esse empresa de insurgir da cova
como um sol teimoso
Pratico as instruções
                  Simplesmente faça
ponho meus sapatos, levanto
o peso que um corpo reúne
e caminho sobre águas negras. [6])
Elza Soares sempre retorna, canção.
daria a minha vida
a quem me desse o tempo
mas se eu me levantar
ninguém irá saber
e o que me fez morrer
vai me fazer voltar
Revolto, sempre retorna o mar.

[1] Para outras informações sobre o álbum, ver: http://www.naturamusical.com.br/ouca-mulher-do-fim-do-mundo-novo-disco-da-elza-soares.
[2] https://www.youtube.com/watch?v=YKqxG09wlIA.
[3] Elza Soares, “A Copa que não comemorei”, publicado na Folha de São Paulo em 25 de maio de 2014. Disponível aqui:http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2014/05/1459050-a-copa-que-nao-comemorei.shtml.
[4] Ambas as citações são de: Marguerite Duras, O amante, São Paulo, Cosac Naify, 2007, p.75.
[5] Shara McCallum, “What the oracle said“, in: Kei Miller (edição), New caribbean poetry: an anthology, Manchester, Carcanet, 2007, p.92. Trecho traduzido por mim.
[6] Jennifer Rahim, “Lady Lazarus in the sun“, in: Kei Miller (edição), New caribbean poetry: an anthology, Manchester, Carcanet, 2007, p.140. Trecho traduzido por mim.