PEQUENA CRÍTICA | A ORDEM DAS COISAS: SOBRE “O LIVRO DAS SEMELHANÇAS”, DE ANA MARTINS MARQUES

por Claudio Medeiros

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Sócrates: (…) Vê se discorro bem! Não haveria dois seres semelhantes, por exemplo Crátilo e a imagem de Crátilo, se um deus imitasse não só a tua cor e a tua forma, como os pintores, mas reproduzisse também, exatamente, todo o teu interior, bem como a tua própria delicadeza e ardor e lhes infundisse monção, alma e pensamento, tais como em ti existem; numa palavra, se colocasse junto de ti uma cópia de todos os pormenores que tu possuis: Haveria então Crátilo e a imagem de Crátilo ou dois Crátilos?
Crátilo: Parece-me que dois Crátilos, Sócrates.

Um mapa não é um duplo menos tangível do real, ele não é um espelho, como também não se esgota na humanização do espaço no plano. A cartografia é a experiência dos limites e das determinações. Antes dela, teria havido algo como a indistinção de uma mata fechada, então alguém propôs inventar a cerca: o mapa surge junto da propriedade privada. Existem cartografias que precisam ser lidas como poesia n’O livro das semelhanças, de Ana Martins Marques. Existem poemas inclusive que, tal como mapas, são idênticos a si, na medida em que exigem a instituição/apropriação de suas heterotopias.

Assim, é mais ou menos evidente que o mapa – como um DSM, por exemplo, ou um índice remissivo de uma História Natural, ou como um índice onomástico de um manual de Filosofia – é um instrumento feito para algo que o ultrapassa. Mapas são utensílios definidos por sua serventia, que só realizam sua essência quando se descobrem no manuseio pelas mãos do geógrafo, do turista, do topógrafo, do conquistador espanhol, do gamer, domotoboy. Nada disso se aplica ao livro de Ana Martins Marques, embora aqui resida uma artimanha que nos interessa. Se o que resta é escrever com palavras de segunda mão, se “só contamos com palavras / estas mesmas que usamos todo dia / como uma mesa um prego uma bacia / escada que depois deitamos fora” [1], palavras que se sucedem ou coexistem numa língua como edifícios de uma cidade histórica, palavras, enfim, cujo sentido se promove no uso, que ninguém espere se tratar aqui de instruções da autora sobre como se portar à mesa. O que se quer ao tomar a palavra tal como quem lança mão de uma moeda gasta, de mão em mão renovada e mantida, é demonstrar, por uma espécie de efeito reverso, o quão ingrato seria pensar os versos conforme os parâmetros das teorias do significado amparadas em relações pragmáticas. Na metafísica das semelhanças, a linguagem possui um ser. Existe um ser vivo da linguagem, logo, sob nenhuma circunstância o leitor será surpreendido por signos arbitrários. Isso quer dizer que, no sistema das semelhanças de Ana Martins Marques, a linguagem não possui historicidade – ela já está depositada no mundo e dele faz parte desde as idades mais remotas, desde antes da Babel.

Poema de verão

Você está sob a luz
de certos poemas cheios de sol
sua mão faz sombra sobre a página
encobrindo algumas palavras
a palavra menina agora está à sombra
a palavra retângulo
a palavra brinquedo
as outras palavras ficam pairando
no poema como partículas de poeira
brilhando na luz
você gostaria de escrever poemas assim
em que se encontrasse de repente
o esqueleto alvo de um animal pequeno
ou em que um jovem casal dormisse
dentro de uma picape vermelha… [2]

Na cultura das semelhanças, a língua não traçou necessárias relações de significação com o mundo – os nomes não se destinam a apontar para as paixões da alma, eles tampouco nasceram para sinalizar objetos. A língua, uma empiricidade, uma coisa que se pode elencar ao lado dos bichos da natureza, das rochas, dos rios, das luas, é ela mesma anterior aos próprios falantes. De modo que dizer serem os nomes semelhantes às demais coisas da natureza é dizer que os nomes imitam as coisas. Ora, quando alguém vier a conhecer a natureza de uma coisa não será pela via da abstração, mas pela leitura e pelo comentário. A relação de conhecimento com as coisas não difere da relação de comentário dos cânones. E, visto ser o objeto justamente semelhante ao nome, o que se tem n’O livro das semelhanças é uma sincera não-distinção entre o que se vê e o que se lê.

Aqueles que só conheceram o mar pelo rumor que faz um livro
quando tomba
os que só sabem da floresta o que ensina a farfalhar das páginas
os que veem o mundo como um grande volume ilustrado
no entanto sem legendas sem índices remissivos sem notas explicativas…  [3]

Assim, a relação de semelhança não será exclusivamente uma relação autônoma entre signos: o sentido das coisas vem à luz pelo que lhe é semelhante, é assim que a relação de semelhança se estrutura numa rede de signos que percorre o mundo das coisas.

Último poema

Agora deixa o livro
volta os olhos
para a janela
a cidade
a rua
o chão
o corpo mais próximo
tuas próprias mãos:
aí também
se lê [4]

As coisas falam uma língua que se dispõe a narrar a sintaxe que as liga. Foucault segue por esse sentido quando, pensando a Renascença, diz que a natureza das coisas, sua coexistência, o encadeamento que as vincula e pelo que se comunicam não é diferente de sua semelhança. [5] Mas, entre realidade e imagem projetada, como é possível (seria possível?) enumerar dois domínios?

Octavio Paz escreveu:
“A palavra pão, tocada pela palavra dia,
torna-se efetivamente um astro; e o sol,
por sua vez, torna-se alimento
luminoso” [6]

A semelhança é uma sorte de código genético das coisas, o que nos leva a achar que ela não se presta a categorias de forma dos signos/conteúdo, significante/significado. Ela é uma dobra do ser. Ela é, em uma única figura, as leis de afinidade, o domínio das marcas e o conteúdo assinalado. “Paracelso compara essa duplicação fundamental do mundo à imagem de dois gêmeos ‘que se assemelham perfeitamente, sem que seja possível a ninguém dizer qual deles trouxe ao outro sua similitude.’” [7]

É mais difícil esconder um cavalo do que a palavra cavalo
É mais fácil se livrar de um piano do que de um sentimento
Posso tocar o seu corpo mas não o seu nome… [8]

Alguns livros são cosmogonias. Pode ser que, através deles, alguém desenvolva a faculdade de ler o mundo para demonstrar o livro. De todo modo, falar em dois domínios é força de expressão: não há entre mundo e livro diferença de natureza, não há diferença específica.

Capa

Um biombo
entre o mundo
e o livro [9]

Biombos: frágeis esquadrias de madeira articuladas por dobradiças, preenchidas ou com cizal trançado, ou papel de parede, tecidos estampados de bambus japoneses, couro de reses etc. O biombo é frágil porque exige sua permissão para ser o que é, porque ele lhe convoca e porque você atende ao chamado: entre mundo e livro, esse magro anteparo se sustenta. Deite o biombo no chão e ele será como madeira de demolição, retire as dobradiças para que ele perca firmeza e alguém o tome por entulho. Ou olhe pela fresta do biombo com sua respiração de animal despudorado e traduza o livro de lá para a nossa linguagem castradora, instrumental. Veja, o livro já não está aí, à mão, em sua fala. Não se traduz um mundo. Dê uma volta em torno do seu eixo de modo a ir para dentro do biombo, olhe agora: o mundo pela fresta do livro. “Aqueles que só conheceram o mar pelo rumor que faz um livro / quando tomba / os que só sabem da floresta o que ensina o farfalhar das páginas” [10], aquelas criaturas à imagem de Dom Quixote, drogaditos em romances de cavalaria, alguém que considera o próprio corpo de maneira impessoal, não sente a orelha decepada, não sente o osso partido, mas a cerviz cingida com armadura de papelão, e Dulcinéia del Toboso, a quem lhe pareceu adequado chamar de guardiã do seu pensamento.

Na segunda parte do romance de Cervantes, Dom Quixote retorna e encontra os personagens da primeira parte do texto, que agora o reconhecem como herói do livro. “Esse livro, porém, Dom Quixote mesmo não o leu nem pode lê-lo, já que ele o é em carne e osso.” [11] No metalivro de Cervantes, a circularidade é imanente. Em O livro das semelhanças, contudo, a circularidade não conduzirá a uma experiência labiríntica, mas ao ser bruto da linguagem nas suas heterotopias inaugurais:

Pintores que pintam apenas títulos de quadros
fotógrafos que só fotografam fotografias
atores com seus figurinos de palavras
com sua maquiagem de palavras
num cenário de palavras
viajantes de mapas, turistas de nomes de cidades… [12]

A poesia de Ana Martins Marques arrastará o mundo pelos cabelos não para torná-lo mais racional, muito menos para consumir o estoque-para-poesia que parece haver em qualquer língua, mas para restituí-lo ao jogo originário de semelhanças, como alguém que fecha um mapa de modo a dobrar o mundo sobre si mesmo. Assim se destitui a língua da sua função de caixa de ferramentas, para apoderá-la, sob a aparência de uma certa geração espontânea, da sua precária diferença.


[1] Ana Martins Marques, O livro das semelhanças, São Paulo, Companhia das Letras, 2015, p.19.
[2] Idem, p.27.
[3] Idem, p.61.
[4] Idem, p.29.
[5] Michel Foucault, As palavras e as coisas, São Paulo, Martins Fontes, 2007, p.40.
[6] Ana Martins Marques, op. cit., p.17.
[7] Michel Foucault, op. cit., p.27.
[8] Ana Martins Marques, op. cit., p.63.
[9] Idem, p.13.
[10] Idem, p.61.
[11] Michel Foucault, op. cit., p.66.
[12] Ana Martins Marques, op. cit., p.62.