OFICINA | Entrevista com Júlia de Carvalho Hansen

por Luiz Guilherme Barbosa

LEITURAS

Não apenas os poemas de Júlia de Carvalho Hansen ensaiam a proximidade com aquilo que, à falta de palavra mais precisa, chamamos de natureza, mas, com Seiva veneno ou fruto, não tem jeito, a sua voz arrasta coisas grandes, lê-se assim: “Minha vida foi parar em outra galáxia / e escrevo para resgatá-la”, ou “Procuro no vento / a consciência das plantas”, ou “Criar raízes é o mesmo que fazer órbitas”. O tamanho pequeno das letras dos poemas na edição de capa azul, poemas sem título todos, editados pela Chão da Feira, sugere a dimensão da letra. A leitura, orbitando o poema a cada verso no vaivém do olhar sobre a página, termina por se deparar com um último poema que logo começa: “Da palavra sair / habitar outros mundos”. Parece que as letras na página são pequenas na medida em que, quanto mais pequenas, mais propulsoras para fora da palavra. Por isso parece que esses poemas de Seiva veneno ou fruto convocam.

Em antologia recém-publicada para leitores argentinos, Luciana di Leone redige uma breve nota crítica a respeito de Júlia de Carvalho Hansen, onde se lê:

Júlia carrega uma árvore em seu nome, o carvalho, e talvez por isso seja uma das poetas que hoje retoma de forma mais clara e contundente um vínculo com a natureza. Em certa medida, um vínculo cósmico, criando laços entre o próprio corpo, a terra e o céu, a poesia de Júlia de Carvalho Hansen explora esse terreno que, depois dos movimentos modernistas, tinha se tornado intocável. Sem dúvida, é uma dessas poetas que não escrevem sozinha, o que se percebe pelo projeto Cantos de estima, sustentado no intercâmbio. Em diálogo com muitos outros poetas e artistas, procupada com a “terra” do português Ruy Belo e com o “mato” de Leonardo Fróes, (dois de seus poetas prediletos), Júlia faz com que a reflexão sobre a própria poesia não seja enunciada mas antes posta em ação, para dar lugar ao tema da vida, não em termos humanistas, mas sim em termos humanos, terrenos, materiais, celestes. [1]

É que chama a atenção haver nas palavras de Luciana essa relação entre os limites do enunciado no poema e o tema da natureza, como se então essa poesia-de-natureza não fosse uma poesia da descrição ou da paisagem, fosse, sim, uma poesia que se lança em diálogo, na praça de convites, no meio da cidade. Como insiste em suas falas o poeta Leonardo Fróes, dizendo sobre a sua poesia que não se trata de uma poesia de natureza e sim de uma poesia de pensamento, os poemas de Seiva e, ao lado deles, a atuação de Júlia Hansen também como editora, conduzem o pensamento à orla do poema, a “o que engloba / o que me olha”. Como se não houvesse claramente uma distinção entre o que se diz natureza e o que se chama outro, e a natureza, então, pudesse ser, assim, o tema urgente das cidades, suas praças e governos.

Depois de lermos juntos, no mês de junho, Seiva veneno ou fruto, propusemos três questões à Júlia, que nos respondeu de pronto e a viva voz. As respostas ouvidas na voz da Júlia – que, depois de sua voz gravada e enviada pela internet, começou a ser, ali entre nós, cada vem mais Júlia do que Hansen – recolocaram, no momento da escuta, o traço experimental da Oficina Experimental de Poesia. Porque, entre os exercícios de lanternagem do poema que semanalmente se realizam no Imperator – um centro cultural da prefeitura do Rio de Janeiro localizado na zona norte da cidade, no bairro do Méier –, o que se experimenta é, antes, a oficina, o estar-ali experimentando-se no encontro com os outros poetas e seus poemas. Por isso, a presença da voz da Júlia foi reveladora, e a força de suas respostas, evidente. E também por isso é pela voz dela que essa entrevista pode se ampliar à escuta da internet, amplificando seus intervalos. E, depois da entrevista, seus poemas.

*

 

Rafael Zacca: Júlia, acho que teu livro tem três momentos, uma coisa assim meio tragédia, mas meio às avessas, entende? Numa estrutura que vai da gênese, passa pela perdição e encontra prognósticos. Uma coisa parecida com um jogo de tarô: você explica o jogo, tira as cartas, conta das cartas; depois há o momento de afinidade, isto é, de toque, da pessoa se tocar, de se perder ali naquela leitura interpretativa das cartas juntas e tudo o mais; e, depois, uma série de prognósticos: é preciso fazer isso e aquilo, e tal. Nas palavras do livro, isso começa com uma gênese do mundo mesmo, com os animais, os minerais, uma coisa bem material, depois para um eu lírico mais perdido, entre a louca e a condenada, aos poucos se empodera (ainda no segundo momento), até vir a figura da sábia, da profeta, e daquela que cuida, que sabe dizer o que devemos fazer nessa situação de guerra generalizada, ainda que enigmaticamente, ainda que falando por subterfúgios, ou coisa que o valha. Você acha que a sua prática mística (você entende isso como mística?) com astrologia e tudo mais se relaciona de que maneira com a sua literatura?

 

Heyk Pimenta: Gostei de pensar a primeira parte do livro. Algo como a apresentação dos elementos de um mundo, de parte dos seus mistérios, de parte das relações entre esses elementos. Aquilo que está nas raízes e no movimento das folhas como sendo um movimento total, de deuses bons, de deuses baixos. É possível falar de um projeto de totalidade, de unidade com o cosmo no livro? Poderíamos associá-lo à busca por unidade que se expressou no romantismo alemão ou essa noção de mapeamento, de comunhão, de encontro entre as coisas de um mundo passa por outras referências? Quais são? Poetas precisam ter isso em mente? O poeta ocuparia um lugar especial nessa partilha das coisas ou na construção de pontes entre elas? Você vê outras pessoas que escrevem ou em outras artes que apresentam um projeto parecido com o seu?

[2]

Luiz Guilherme Barbosa: Na esteira das questões do Heyk, e depois daquelas que o Zacca colocou, gostaria, não só pela beleza gráfica do Seiva, de colocar a questão da relação entre a poeta e a editora. Quando que publicar os seus poemas foi atravessado por publicar livros alheios? Há uma pré-história nisso tudo aí: o começo dos poemas, o começo das edições nalgum jogo de infância, adolescência? Mais: uma editora é um lugar em que os escritores se encontram. Então a pergunta também pode ser: como, desses encontros, os poemas assinados por Júlia Hansen acontecem marcados pelas edições vizinhas aos seus poemas?

3 POEMAS DE JÚLIA DE CARVALHO HANSEN
[todos publicados em Seiva Veneno ou Fruto, ed. Chão da Feira]

Que elegantes!
Os animais.
Ah! deixar-se
pelos músculos. Viver
discreta entre as sombras.
Não se preocupar com folhagens
riscando, raspando, umedecendo
e rosnando levar a vida! Correr
correr, correr. Descansar.
Entretanto eu aqui a entender
que não se conhece natureza
que nunca há paisagem
e é com isso que lentamente
nos pomos a acender
a brasa lenta desfazemos
em cinzas essa cultura.
Quer dizer, ter pela cintura
plumas, ser pela ampla
ampliação dos rios com várzeas.
Cobrir de penachos os “achos”
ao abrir das estrelas
cantar, gritar, trinar
febris (tão meus) compassos.
Não dizer nada
nem saber dançar.
Esquecer, esquecer – lembrar.

Saberem-se errados, turvos, iludidos, desmascarados
não faz de vocês pessoas melhores ou mais reais.
A infelicidade, a tormenta, o vício, as fezes
não fazem de vocês pessoas melhores ou mais reais.
As desculpas, as explicações, quaisquer intenções
não fazem de vocês pessoas. Fazem de vocês, vocês
estarem errados, turvos, iludidos, desmascarados
infelizes, atormentados, viciados, cagões
desculpados, explicados, intencionais
vivos. E não sozinhos.
Mas quem não sabe de nada disso
Mas quem sabendo de tudo isso
confunde-se ao ponto de se achar
achado, melhor e vivo
está sozinho. E, bem,
nem os mortos
estão sozinhos.

Da palavra sair
habitar outros mundos
a espinha dorsal do peixe
lamber até limar os dígitos.
Dar os tímpanos
ao vibrar os grilos
reconhecer a chegada do trovão
no deslocar do sangue
e ao anteceder terremotos
subir! No alto da árvore
e cair com o rabo
enovelando um galho
se dependurar na abóbada celeste
soprar o rumo dos polos
e das marés que vem dos polos.
Não conhecer despedida
viagem ou remorso
código, símbolo ou faca.
Nunca alterar a rota do fogo.
Ser seiva, veneno. Ou fruto.

Destaque_SVF_encomendas

NOTAS

[1]

“Antología del verde. Un recorrido posible por la naturaleza en la poesía brasileña reciente”, publicado na revista argentina online El jardín de los poetas, disponível em: http://cajaderesonancia.com/archivos/REA%20Antologia%20del%20verde%20-%20El%20jard%C3%ADn%20de%20los%20poetas_editada.rtf.pdf. “Júlia lleva un árbol en su nombre, el roble, y tal vez por eso sea una de las poetas que hoy retoma de forma más clara y contundente un vínculo con la naturaleza. En cierta medida, un vínculo cósmico, trazando lazos entre el propio cuerpo, la tierra y el cielo, la poesía de Julia de Carvalho Hansen, explora ese terreno que, después de los movimientos modernistas, se había vuelto intocable. Sin dudas, es una de las poetas que no escriben solas, como se torna explícito en el proyecto Cantos de estima, sustentado en el intercambio. En diálogo con muchos otros poetas y artistas, preocupada con la “tierra” del portugués Ruy Belo y con el “mato” de Leonardo Froes (dos de sus poetas predilectos), Júlia hace que la reflexión sobre la propia poesía no sea enunciada sino puesta en acto, para dejar lugar al tema de la vida, no en términos humanistas, sino em términos humanos, terrenos, materiales, celestes.”

[2]

No arquivo enviado por J.C.Hansen, podíamos ler uma nota:

“Transcrevo aqui o poema todo, de “Vertmuno”, na tradução de Carlos Leite, editada pela Cotovia:
X

Nunca ninguém soube como passavas as noites.
Mas isso não é assim tão estranho, para quem conheça
as tuas origens. Uma vez, depois da meia-noite, no centro do universo,
fui dar contigo na companhia dumas estrelas declinantes
e tu piscaste-me o olho. Pedias-me discrição? Mas o cosmos
é tudo menos discreto. Pelo contrário. No cosmos pode-se ver
tudo à vista desarmada, e as coisas dormem sem lençóis.
A incandescência de qualquer estrela é de tal ordem
que ao arrefecer pode engendrar o alfabeto,
as plantas, a forma do tempo; e a nós, simplesmente,
com o nosso passado, presente, futuro,
e tudo o resto, mas sobretudo o futuro. Nós não passamos
de termómetros, irmãos e irmãs do gelo,
não da Betelgeuse. Tu eras feito de calor,
daí a tua omnipresença. É difícil imaginar-te
num ponto preciso, por mais brilhante que seja.
Daí a tua invisibilidade. Os deuses não deixam mancha
num lençol, sem falar da progenitura,
contentam-se com uma verosimilhança artesanal
num nicho de pedra, ao fundo duma álea do jardim,
demasiados felizes com a minoria que são.”

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