PEQUENA CRÍTICA | “toda arte é uma conversão do defeito em linguagem” | Sobre Nuno Ramos

por Eduarda Moura

Das coisas ditas por Nuno Ramos, aquelas de que mais gostei foram as que tratavam de suas limitações. Numa entrevista, Nuno conta que, quando percebeu que compreendia muito menos do que lia quando estudava filosofia, entrou em crise com o texto. Daí o interesse pela matéria e pelas artes plásticas, mas também uma vontade de lidar com uma linguagem em que não possuía técnica alguma. Diferentemente da literatura, cuja linguagem lhe é mais familiar, tanto por ter tido um pai professor de literatura da USP quanto por escrever desde cedo, Nuno diz não saber nada sobre as técnicas tradicionais das artes plásticas. Embora quisesse possuir tais recursos, coloca em questão os saberes especializados quando declara que “toda arte é uma conversão do defeito em linguagem”. Essa afirmação, me parece, abre um caminho de experimentação bastante rico, já que a limitação não seria a impossibilidade de realizar o trabalho artístico, mas justamente sua força.

No caso do Nuno Ramos artista plástico, se pensarmos nas limitações indicadas por ele associadas ao seu interesse pela matéria, temos as pinturas que tem desenvolvido desde o início de sua carreira, que incorporam materiais muito distintos, como metais, madeira, plástico, tecidos, vaselina, entre outros. Tais pinturas ganham grandes dimensões e extrapolam os limites da superfície do quadro, sem deixarem de se apoiar nela. Ao misturar materiais diversos, sua busca é pelo choque, pela possibilidade de que, nesse conflito, a matéria fale por si, ainda que caia, ainda que se destrua. A falta de técnica parece, então, ser aquilo que permite colocar em questão a própria técnica. Quando Nuno testa o suporte do quadro através dos elementos que dentro dele brigam (para permanecer, para sair, para se unir, para despencar), está colocando em teste a pintura como um todo. O que se destaca não é o objeto pronto, mas o processo por que passam esses materiais para dividirem um espaço comum – e pelo qual seguem passando, como nos casos em que a relação entre eles não se estabiliza e seguem reagindo uns sobre os outros.

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Sem título, 1994 – Latão, cobre, alumínio, pelúcia, plásticos, tecidos, espelho, acrílico, tinta a óleo, canos de aço inoxidável. 312x663x235 cm

 

É a arte como processo o que mais me chama atenção no seu trabalho. Pra mim, é aí que reside sua força. Na escrita isso se dá de diferentes formas, em livros distintos, sendo Ensaio geral: projetos, roteiros, ensaios, memória (2007) um caso curioso, justamente por se propor a registrar os processos de Nuno. O livro tenta dar conta de assuntos muito variados, que vão do teatro de Nelson Rodrigues à análise do futebol de Robinho e Ronaldinho Gaúcho. Os ensaios críticos são intercalados por roteiros, projetos de exposições, diários de trabalho e diários pessoais. São, assim como nas pinturas e instalações do artista, materiais muito distintos colocados em contato para, a partir do choque, da dispersão de seu contexto de origem, estabelecerem novas relações.

No prefácio do livro, Nuno explica que as relações entre os textos foram surgindo durante sua organização, de modo que o contato entre eles possibilitasse novas leituras para seus trabalhos como artista visual, enquanto seus projetos de arte e roteiros também trariam novos olhares para os objetos pensados nos ensaios. É dentro desse suporte conhecido, como o quadro na pintura, que conversam fotos de um trabalho para uma canção de Tom e Vinícius e um ensaio sobre o canto de Paulinho da Viola, e mesmo uma entrevista fictícia com o Beckett, por exemplo.

Os projetos de exposições e os roteiros, normalmente vistos como etapa preparatória para um produto final, são expostos no livro sem que tenham sido necessariamente concretizados. O livro traz alguns projetos de site specific, ou seja, obras pensadas para um lugar determinado e que não chegaram a ser montadas nem o serão, já que Nuno explica também quais condições impossibilitaram sua realização plástica. Mesmo assim, o processo continua ali exposto, tomando lugar do produto final. A arte aparece como algo sempre num desfazer-se, recriar-se, ensaiar-se a si mesma: como limitação convertida em linguagens.

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NUNO RAMOS – ENSAIO GERAL
Trecho de Minuano [diário de um trabalho]

O peso da pedra, seus veios azuis e verdes, o embarrigado do mármore, a palavra mármore, a palavra pedra, o silêncio dela (o granito é ainda mais calado), o espelho que cava o céu no buraco da pedra, o espelho que cava o pasto no buraco do mármore, a palavra buraco, o espelho como um farol, o reflexo que cega, o reflexo do sol que cega batendo no espelho dentro do mármore.

Minhas coisas no hotel não parecem minhas. Não conseguem carregar consigo aquilo que normalmente as circunda: as roupas não trazem junto suas gavetas, a escova não traz a pia onde fica largada, o pijama não arrasta a minha cama. Isoladas do que lhes é contíguo, parecem tão sozinhas quanto eu.

Gosto de poças e pantanais, animais apodrecendo, sólidos que afundam, tudo o que logo desaba – mas, estranhamente, queria fixar isto.

E se antes de amanhecer uma pequena lanterna estivesse pronta em minha mão para iluminar a cena? A cena: o ar, a vaca, as pedras, seus espelhos; a manhã líquida, o tumor neblina em meu pulmão. E se o sol ao refletir nos espelhos incendiasse depois a planície? E se, cansado disso, eu mergulhasse no leito líquido de barro, escama e galhos de que é feito o rio desgarrado, o Quaraí? E se debaixo d’água eu ainda me arrependesse?

Os dias roçam meu ombro e fogem. Não consigo sequer vê-los se afastar. Procuro atraí-los com meus propósitos, peço que parem para eu entrar. Não param. Os dias devastam os pastos, são feitos de ares tão largos, maiores que nós. A luz que têm nos suporta, mas não foi feita para nós. Poderiam recitar sua finalidade, dias felizes, mas sei que desabam no horizonte sem se importar.

A obra vem como um rumor de coisas transparentes, opostas, choque de pássaro e cortiça presos no mesmo varal. Anuncia, com um silvo aflito, sua chegada radiante. Mas seu fôlego é curto, parece que morre com esse silvo, sendo logo acossada pela consciência pânica de ser preciso encarná-la antes que desapareça. Seguem então as perguntas mais primárias, infantis: de que é feita? Qual é o seu contorno? Tem um nome? É vermelha? É grudenta? Seu tamanho? Cabe na parede? É um bicho? Um planeta? Tem cabelo? Vão gostar? É assim que a recebemos, mordomos aflitos, com a matéria física de que dispomos ou com essas palavras que não inventamos.

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