NOTA DOMINICAL | Marimbondo sem ferrão presta pra nada? | Sobre “A vida dos poetas” de André Chenet

por Heyk Pimenta

Estou com uma toalha verde na cabeça. Era da minha ex. Coisas que herdamos. Há anos uma hóspede portuguesa resolveu descolorir alguma coisa e manchou a toalha junto. Um círculo amarelado numa das pontas. Há uma semana minha mãe veio nos visitar. Usou a mesma toalha, que já é bem mais fina.

No sábado estava no Pedro II, onde dou aula. Num intervalo da reunião de pais, li uma tradução que o Leo Gonçalves fez de “A vida dos poetas (improviso)”, um poema do André Chenet. Foi a Modo de Usar que publicou.

O poema é uma espécie de etnografia em torno dos poetas. Começa e termina dizendo que poesia não traz felicidade, sim, é desses poemas que queremos desdobrar e sentimos que a melhor forma de falar sobre ele é colando o maldito aqui dentro desse texto. http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2016/07/andre-chenet.html. Pronto. Colado.

Numa relação entre felicidade e beatitude, o poema elenca mazelas e mais meia dúzia de fofuras de que os poetas; as mazelas, todas morais – bom, e comerciais também. Aparecem banqueiros, senadores, professores, pop stars… Tipos possíveis pros poetas. Não profissionalmente, mas arquétipos que os poetas acabam comprando, topam, levam a vida nessa. Mas o tipo que mais dá gosto ao Chenet, o autor, é outro:

tem ainda o poeta tímido que eu conheço
que vai dançar numa escola de areia com as crianças
quando se sente um pouco deprimido
e é esse que eu prefiro
que chega com um buquê de flores magras na mão
como quem se desculpa por estar sempre atrasado

O constrangimento das pessoas ao conhecerem algum poeta, o abandono dos bares, os workhops que os poetas oferecem, suas pastas nomeadas com portfólios e manuscritos, tudo pronto para a posteridade, são temas do poema. Algo como um constrangimento e também um “ok, ele tem razão”, pensativo e risonho, me pegaram.

Fiquei querendo compartilhar o poema, na escola o facebook é bloqueado. Depois eu iria prum sarau e depois pra casa pra apagar fogo. O sábado passou e deixei o poema pra lá. Quase deixei de vez, como tantas coisas que vão ficando pela casa ou que são esquecidas. Agora que o domingo anoiteceu, me lembrei que deveria escrever algo pra cá hoje.

Essa tipologia elencada por “A vida dos poetas” me fez lembrar a ocasião em que conheci a professora e ensaísta Luciana Di Leone. Ela explicava num auditório da ECO que os poetas argentinos da geração dela não eram mais beberrões, nem cabeludos. Eram bons leitores. Tomavam açaí. Não viviam com uma flecha atravessada no peito. Eram poetas porque escreviam, tinham deixado a moldura idealizada e cansativa d’O Poeta por aí, pela história.

Enquanto ela contava, eu pensava na porrada de escritores beberrões e cabeludos e que vivem de pequenos ou grandes golpes que eu conhecia. Pensava também se ele contava dos poetas da Argentina ou se dos poetas com quem ela se esbarrava, universitários como ela, bons leitores como ela. Ou se realmente estava acontecendo alguma coisa.

O mundo da produtividade e da eficácia, o mundo atlético do desempenho, o capitalismo enfim, teria atingido também os poetas? Seriam eles agora também reféns de treinamentos de alto rendimento e de um baita approach e articulação? Teriam virado profissionais liberais como quaisquer outros? O que você faz? Sapatos. E você? Poemas. Ambos limpos, unhas cortadas, com um plano de negócio feito com amparo do Sebrae dentro da mochila?

Caramba.

Algo me ocorreu agora. Essa aparente limpeza não cheira à inofensividade? Os poetas teriam, finalmente, deixado de ser perigosos? Se for isso, pra mim não serve.

Nesse meio tempo, pedi pro Leo se podia publicar aqui o poema, ele disse que sim:

A VIDA DOS POETAS (IMPROVISO)
André Chenet

escrever poesia não traz felicidade
se fosse assim todos os poetas grandes e pequenos
acabariam por ter um ar realmente beato
alguns parecem senadores
outros parecem banqueiros ou professores
os mais loucos entre eles fazem poses
de pop stars em lavabos públicos
tem ainda o poeta tímido que eu conheço
que vai dançar numa escola de areia com as crianças
quando se sente um pouco deprimido
e é esse que eu prefiro
que chega com um buquê de flores magras na mão
como quem se desculpa por estar sempre atrasado
mas em geral os poetas têm ar de seriedade
muitos parecem
mulheres ou homens ordinários
vão fazer compras
como você como eu no supermercado da esquina
os poetas não saem na primeira página dos jornais
e há muitos anos
não aparecem na televisão nem no rádio
para quê se os ouvintes os ignoram
por outro lado podem ser encontrados
estacionados em festivais que lhes são reservados
a fim de oficiar alguns dias
aconselhar seus jovens êmulos sobre o caminho a seguir
para se tornar um poeta honesto irrepreensível
no entanto a maioria das pessoas fica impressionada
quando alguém lhes apresenta um poeta
pois elas têm uma ideia engraçada da poesia
mas os poetas as consolam
lendo-lhes poemas mais absconsos
que um teorema de física quântica
atualmente os poetas não frequentam mais
os botecos populares ao sair do trabalho
não fumam mais bebem em pequenos goles
não celebram mais os esplendores da carne
os mistérios oníricos do amor
os poetas ficam na deles
trocam entre si seus livros, escrevem cartas
redigem seus memoriais numa idade avançada
e preparam assiduamente sua glória post-mortem
os poetas não cantam mais recitam seus deveres
como velhos estudantes empoeirados
diante do quadro negro de uma sala quase vazia
não olham mais o sol nascer
as constelações e a lua girando no céu
esqueceram os ritmos das marés e das estações
pegam metrô ou avião fazem conferências
estão assoberbados e não têm mais tempo de meditar
esses pobre bugres precisam também ganhar a vida
como você como eu eles fazem filhos
pagam impostos votam vão trabalhar
acredita-se que não dormem nunca
de tanto que escrevem com a força do punho
e quando chega a hora da aposentadoria
os poetas se entregam
deixam crescer a barba ou o cabelo
recebem as homenagens de seus pares
se tornam cada vez mais profundos
cada vez mais prolíficos
recuperam o tempo perdido
publicando livros que ninguém lerá
antes de cinco ou seis séculos
escrever poesia não traz felicidade
e seria o cúmulo se fosse o caso!

(tradução de Leo Gonçalves)

LA VIE DES POÈTES (IMPROVISATION)
André Chenet

Écrire de la poésie ne rend pas heureux
sinon tous les poètes les grands et les petits
finiraient par avoir l’air vraiment béat
certains ressemblent à des sénateurs
d’autres à des banquiers ou des instituteurs
les plus fous d’entre eux prennent des poses
de pop stars dans les lavabos publiques
il y a encore ce poète timide que je connais
qui va jouer dans un bac à sable avec les enfants
lorsqu’ils se sent un peu déprimé
et c’est celui que je préfère
qui arrive avec un bouquet de maigres fleurs à la main
comme pour s’excuser d’être toujours en retard
mais en général les poètes ont l’air sérieux
beaucoup d’entre eux ressemblent
à des femmes ou des hommes ordinaires
ils vont faire leurs courses
comme vous comme moi au supermarché du coin
Les poètes ne font pas la Une des journaux
et depuis pas mal d’ans
ne passent plus à la télévision ni à la radio
pourquoi faire puisque l’audimat les ignore
Par contre on peut les rencontrer
parqués dans des festivals qui leurs sont réservés
afin qu’ils puissent officier quelques jours
conseiller leurs jeunes émules sur la marche à suivre
pour devenir un poète honnête irréprochable
Pourtant la plupart des gens sont impressionnés
quand on leur présente un poète
car ils se font une drôle d’idée de la poésie
mais les poètes les rassurent 

en leur lisant des poèmes plus abscons
qu’un théorème de physique quantique
de nos jours les poètes ne fréquentent plus
les bistrots populaires à la sortie des usines
ils ne fument plus boivent à petites gorgées
ne célèbrent plus les splendeurs de la chair
les mystères oniriques de l’amour
Ainsi, les poètes font bande à part
ils s’échangent leurs livres s’écrivent des lettres
rédigent leurs mémoires à un âge avancé
et préparent assidûment leur gloire post-mortem
les poètes ne chantent plus ils récitent leurs devoirs
comme de vieux écoliers poussiéreux
devant le tableau noir d’une salle presque vide
ils ne regardent plus le soleil se lever
les constellations et la lune tourner dans le ciel
ils ont oublié les rythmes des marées et des saisons
ils prennent le tgv ou l’avion font des conférences
ils sont surbookés et n’ont plus le temps de méditer
car ces pauvres bougres ils doivent aussi gagner leur vie
comme vous comme moi ils font des enfants
payent des impôts votent vont travailler
à croire qu’ils ne dorment jamais
tant ils écrivent à la force du poignet
et quand sonne l’heure de la retraite
les poètes s’en donnent à coeur joie
ils se laissent pousser la barbe ou les cheveux
reçoivent les hommages de leurs pairs
ils deviennent de plus en plus profonds
de plus en plus prolifiques
ils rattrapent le temps perdu
en publiant des livres que personne ne lira
avant cinq ou six siècles
Écrire de la poésie ne rend pas heureux
et ce serait un comble si c’était le cas !

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