NOTA DOMINICAL | Diferença e tempestade: Stela do Patrocínio e Zbigniew Libera

por Ana Carolina Assis

Mês passado me deparei com o LEGO Concentration Camp: em 1996, o artista polonês Zbigniew Libera construiu uma maquete de um campo de concentração, nos mínimos detalhes, todo feito de LEGO. A empresa doou as peças a seu pedido e depois afirmou desconhecer o objetivo do projeto. Zbigniew afirma ter se guiado pelo slogan da marca “Make your world possible”.

Libera, Lego Concentration Camp

LEGO Concentration Camp |  Zbigniew Libera

Sob a bandeira da aprendizagem, o que se mostra à criança através do lego é uma possibilidade de apreensão do mundo através da razão. É possível entendê-lo, montar e desmontar, moldá-lo através do domínio de uma lógica. Esse sonho lúdico frente à realidade permeou, de certa forma o século XX europeu, e teve como seu extremo os regimes totalitários. Se é possível fazer qualquer coisa pela lógica, pela racionalidade, isto inclui a industrialização e sistematização de pilhagens, remoções, estupros, extermínios.

Não é que um sistema totalitário não perceba as diferenças — mas justamente percebendo-as, atribui a elas uma função. Quem não for racional o suficiente, branco o suficiente, homem o suficiente, europeu o suficiente, também tem um encaixe social, um lugar a ocupar: tal qual um tijolinho de lego, vai para um campo de trabalho.

O susto diante deste horror realizável em um brinquedo veio porque tenho percebido, cada vez mais, a necessidade de olhar a diferença e perceber de que modo ela pensa. De que modo pensam os LGBTs, as mulheres, os negros, as loucas, os imigrantes? O movimento mais natural diante destes pensamentos outros é encaixá-los de volta a uma lógica que seja familiar.

Acontece que a diferença é tempestuosa, produz uma fissura no próprio modo de pensamento. O que acontece quando lemos, olhamos a diferença? A diferença cria no ato da leitura uma necessidade constante de rever-se a si próprio, de se repensar, de não ter asseguradas as próprias categorias: gênero, arte, literatura, ciência.

Stela do Patrocínio[i] é uma dessas tempestades que cai sobre a minha cabeça, me manda tomar vitamina, apresenta um cérebro e outro, um corpo que se constitui e desfaz em gás. Faz pensar por que certas vozes e certos corpos ainda precisam ser mantidos fora de uma vida em comum.

Com os tijolinhos do LEGO você faz o seu mundo possível. E com um tijolinho que se parte, se remonta, volta a se partir em vários, independente do lugar que ocupa numa coluna, o que se faz?

Picture 11

capa do livro editado pela Azougue | um falatório de Stela do Patrocínio selecionado por Viviane Mosé

 

Eu já fui operada várias vezes
Fiz várias operações
Sou toda operada
Operei o cérebro, principalmente

Eu pensei que ia acusar
Se eu tenho alguma coisa no cérebro
Não, acusou que eu tenho cérebro
Um aparelho que pensa bem pensado
Que pensa positivo
E que é ligado a outro que não pensa
Que não é capaz de pensar nada e nem trabalhar

Eles arrancaram o que está pensando
E o que está sem pensar
E foram examinar este aparelho de pensar e não pensar
Ligados um ao outro na minha cabeça, no meu cérebro

Estudar fora da cabeça
Funcionar em cima da mesa
Eles estudando fora da minha cabeça
Eu já estou nesse ponto de estudo, de categoria

Stela do Patrocínio

[i] mais sobre Stela em: http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2013/05/stela-do-patrocinio-1941-1997.html

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