PEQUENA CRÍTICA | Um acidente para começar o dia | Marília Garcia e microgeografia

por Julya Tavares

Numa entrevista durante a FLIP desse ano, Marília Garcia se referiu à poesia como “um quadrado de respiração em meio ao caos”, uma espécie de existência possível que atua por um viés micropolítico, transformando partículas mínimas: uma vida. O que mais me chama atenção em sua escrita é atravessado justamente por esse olhar – “um tipo de lente pra ver de outra maneira” – que percebe e lida com a poesia como um dispositivo capaz de reconfigurar nossa percepção das coisas, deslocando as relações anteriormente estabelecidas, aquilo que seria previsível, para trazer à vista os encontros e tensões ainda possíveis. Manter as linhas – das lembranças, das vivências, dos poemas – não como de fato teriam ocorrido, mas de alguma maneira redesenháveis, como numa cartografia aberta.

Um mapa na maioria das vezes é também quadrangular, ou um retângulo [como pode ser um poema]. Se o rasgamos, na tentativa de transformá-lo em um mapa menor, ele ainda guarda em si um sistema de coordenadas, objetivo e funcional. Por outro lado um rasgo, ou mesmo um gole de café derramado sobre sua superfície, pode provocar algum tipo de alteração naquilo que vemos nos mapas: “riscar um mapa de um ponto a outro/ significa que é possível alterá-lo?/ ou tem o mesmo/ sentido de apagar com/ uma borracha?”. Quero dizer que, se há uma tentativa de registro, de enquadramento, é inevitável que existam também as bordas dos mapas, o fora, um ângulo que seja – talvez muitas de suas linhas – que uma relação objetiva não é capaz de dar conta.

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Na capa de Engano Geográfico, os pés de Marília como bordas do mapa

Penso nesses objetos e no gesto de cartografar porque não são poucas as vezes que Marília Garcia recorre a essas imagens em sua escrita, assim como não é raro que suas personagens, as diferentes vozes que atravessam os poemas, estejam em deslocamento, numa estação de trem, num avião, num carro, e que esses espaços sejam constantemente borrados por uma percepção afetada.        Mas para além de uma geografia física [Paris, Mérilheu, Barcelona, Perpignan, São Paulo, Rio de Janeiro], o que há de mais potente, me parece, é a abertura de outras possibilidades através da prática de escrita, do deslocamento da mão pela folha, dos dedos pelo teclado. A criação de um território que é a um só tempo poema e vida, o que houve [e também aquilo que se ouve] e o que ainda pode haver a partir de uma espécie de reorganização: o contágio de uma língua com outra pela tradução, da teoria literária e do trabalho como editora com a escrita poética; a ordenação alfabética de um poema; a escrita de um livro que é uma viagem e também um mapa.

Talvez toda a literatura, de algum modo, lide com a criação de um mundo próprio. O gesto de escrever, por si só, evidencia as fronteiras entre palavras e coisas, causa uma espécie de acidente geográfico, forma um relevo. Uns nos interessam mais, outros menos, como os lugares por onde passamos todos os dias. Eu, como alguém que ainda não acredita escrever, boto fora com o lixo do dia mundos e mais mundos próprios, mas tenho me apegado cada vez mais às anotações de rua, enquanto estou no ônibus, andando, ou quando acordo de um sonho. Abdico dos poemas, deixo suas possibilidades em aberto. Todas elas atuando em microescala, transformando minhas partículas mínimas. Um poema para começar o dia, para começar a vida do dia, para começar a caminhar pelo dia, é nisso que penso quando leio Marília Garcia.

[1] Vídeo 1: Leitura feita por Marília Garcia para o vídeo realizado pelo grupo de estudos de poesia contemporânea brasileira, coordenado por Alberto Pucheu. 2015. Montagem de Gabriela Capper.

[2] Capa do Engano Geográfico, de Marília Garcia

[3] Vídeo 2: “açaí ou cine paissandu para aníbal cristobo”

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