OFICINA | Parque de versões

por Luiz Guilherme Barbosa

coney-island-vintage

Steeplechase Park por volta de 1957

Consta que Lydia Davis preparou um índice remissivo composto por uma única linha: “Cristã, não sou”. Também não pareceu ser este o caso dos poetas publicados aqui enquanto os seus poemas aconteciam subvertendo de uma só vez dois mandamentos do Decálogo: pois furtaram versos, e deram falso testemunho dos versos roubados nos poemas novos. Um dia o personagem de uma novela que líamos em sala de aula numa turma do ensino médio soltou um palavrão – Caralho! – mas a aluna que lia em voz alta para a turma corou, se recusou a ler, disse que era cristã. E então houve o que houve: o respeito à sua posição, e a crítica à relação com a linguagem – ela, como todos da turma, leu impresso no papel o palavrão, que soou silenciosamente nas cacholas de cada um e de todos, e assim ninguém deixou de ver, ler e escutar em si mesmos o esporro de um palavrão cuja voz foi roubada. Às vezes tudo se resume às possibilidades do alfabeto: com ele se produzem mandamentos, palavrões e poemas. Acontece que acontece alguma coisa no poema, ou pode acontecer essa coisa, que é não localizar as vozes que ele emite. Onde o arquivo das vozes? Ele foi convocado numa oficina da Oficina Experimental de Poesia que aconteceu em vinte e quatro de agosto de dois mil e dezesseis, no Imperator, o que significa ter acontecido no bairro do Méier, na cidade do Rio de Janeiro. Ali, um arquivo de versos das coleções de poesia Megamíni e Luna Parque esteve disponível para que os poetas compusessem os seus poemas com versos roubados. Houve princípio de arrastão, vinte e cinco poetas foram roubados, mas nem todos os pertences foram encontrados nos poemas apreendidos. Prometeram aumentar o efetivo nas ruas, mas sabe-se que os objetos roubados podem ser encontrados à vista onde menos se espera, a teus pés. São objetos quaisquer, nada de mais, nada de novo sob a lua do subúrbio, embora cada repetição seja única. Repetir, repetir, até ficar diferente. Disso eu sei, parece que houve alguém que disse isso. E isso. Disse isso, isso. Isso. E isso.

tem uns paspalhões que se fazem passar por mim
they taste good to her
são homens numa e noutra ponta da faca
os nomes propostos devem ter até 16 caracteres
mas se olharmos com mais calma
o diabo tem corpo de homem
alívio, sabem agora, carregam consigo
os ombros caídos assistem
aparentemente mais felizes do que eles
com seus bastonetes de marijuana
como uma revolução permanente
o lá que se converte em cá, o ali em aqui

Eduarda Moura

 

 

de asteroides, centauros e objetos
eu sempre soube pouco a não ser que
num resquício dos dinossauros
na manequim detrás da vitrine
sob a aparente calmaria
duas mulheres nos olham

Ana Carolina Assis

 

 

com meu vestido azul marinho
sem passado assalto fotografias
à propaganda da cartomante
os benefícios do procedimento
cair respondendo às perguntas. por que
canibal não existe sem sujeito
o que disse também ao fim de um verso
nômade. que virá depois de nós
de encontro ao vidro
o século ainda mata pessoas

Vinicius Melo

 

 

no primeiro dia de ginástica
não entramos porque a água / estava muito gelada
os ombros caídos insistem
não sou defunto / de primeira viagem

estando eu sentado em pé no baixo gávea, passa seu madruga
terrorista, hoje, é o outro, o que, coisificado, escapa
para que poetas em tempos de terrorismo?

quero sentir o amor do velho que nos alugava o apartamento
ele escreveu que o livro é uma edição publicada por enquanto

uma água viva na palma da mão
a mão esquerda do escritor victor heringer
dê uma esfregadinha

ali
onde ja não dói

Julya Tavares

 

 

IDEIA DA POESIA MUITO CONCEITUAL PARA IDIOTAS

Um tiro lento
designação
para ler / no escuro
provisório
atingiu meu coração

Assassinamos
a paisagem / é feia

um dia ao mar
mudar de cor
terá que descer
por alguma goela
a mania de uma pedra
os ombros
ensolarados / agora

não há
entrave não há
os herdeiros / do continente
nada no meio
do caminho

a paisagem / é feia
a caminhada
outra coisa.

Rafael Zacca

 

 

um a um. Depois do irmão, o cachorro……………………….(gandolfi)
Depois do Cristo, às dez da manhã…………………………….(d. magalhães)
fora os pauzinhos que a gente teve que mexer………………(a. l. pinto)
apitos e o elevador. Bicicletas, cigarros, botas e cerve-……(marovatto)

Um apartamento cheio de nuvens sobre os………………….(f. nepomuceno)
os ombros caídos foram à praia no domingo………………..(alice sant.)
com a Petrobrax (e com o que mais der)………………………(pucheu)

Que a terra nos seja leve………………………………………….(sterzi)
E jenipapo, orla de fogo…………………………………………..(sergio)

O porcossauro não está contente.………………………………(b. brum)
Prepara uma grande caravana…………………………………..(calixto)

O banho permanece, é nossa primeira mentira……………..(manoel r. lima)

Heyk Pimenta

 

 

elas
se
com
bin
am?
é o que eu faria
parecendo tão contundente de lábios
nessas sólidas esquinas
até amor verdadeiro
é água salobra
afinal quem sou eu? porra quem sou eu?
a única e burra sabedoria de que somos
picanha de R$400

Luiz Guilherme Barbosa

 

 

20 SUCESSOS

hoje eu vou sair no tchetcheca do Engenho de Dentro
na manequim detrás da vitrine
Do meu tio
declaramos “guerre aux barbares”
na avenida São Luís.
aquela moça, toda vez que saía
como será seu olho, se não conheço sua rebeldia.

Se estamos perdidos,
nem mesmo o labirinto
o nome deve ser escrito em caracteres latinos
para o batismo de corpos celestes
contam que ratos percorrem labirintos
estou presa a mim, ao meu andar, ao meu
moço,
sabe?

quero deixar claro pra você uma coisa: eu sou eu
ando confuso
sempre de galho em galho
até amor verdadeiro
é o medo no corpo
como matar alguém que não se pode ver?

nada de narrativas, nunca mais

Augusto Melo Brandão

 

 

LUNAPARQUE

lunaparque
lu menezes
gabinete de curiosidades

lunaparque
lu menezes
augusto de curiosidades

lunaparque
massi menezes
retratos parisienses

lunaparque
onde no mundo
elã bilateral

lunaparque
síndrome tecno
gabinete de curiosidades

Fábio Terre

the-amusement-areas-at-coney-island--dreamland-luna-park-and-steeplechase-park--made-it-the-largest-amusement-area-in-the-nation-from-the-end-of-the-19th-century-through-world-war-ii

Steeplechase Park, 1954

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s