3 poemas | Ana Carolina Assis

por Rafael Zacca

um bicho magro assustado diante dos embrutecidos

Susan Buck-Morss sugeriu há alguns anos que tornar-se adulto no capitalismo é produto de uma tática anestesiante. Não é coincidência que, ainda no século XIX, no auge do desenvolvimento industrial, tenham proliferado tanto as perfumarias quanto os entorpecentes por via olfativa, compensando (e/ou reforçando) a anestesia generalizada. Talvez seja por isso que os poemas de Ana Carolina Assis, uma poeta de São Gonçalo, a um só tempo sejam objeto de comoção e estranhamento. Seus versos, para falar com seu próprio idioma “crispado”, “demoram feito charque”, e pensam “não / com o cérebro / [mas] com o corpinho / úmido e mole”. Uma proliferação de bichos, texturas e cheiros – na solidão terrível dos versos curtos, qualquer coisa como uma criança sem a companhia de outras crianças – tentam, não sem algum desespero, uma reeducação estética às pressas. Não querem, no entanto, ensinar-nos qualquer humanidade. A criança ou os bichos querem devolver alguma coisa que nos foi tomada, ou negada – “os ralos regurgitando carne e atraso pros jantares”. Os adultos que comam sozinhos, parece dizer Ana; sem nomes para a consistência informe do mundo, “devolvendo a gelatina das coisas”, a poeta é, do primeiro ao último verso, um bicho magro assustado, com uma missão pedagógica, diante dos embrutecidos, da qual não pode tomar consciência.

 

3 POEMAS DE ANA CAROLINA ASSIS

 

mariana

a criança
olhos de gafanhoto
………………………água às vezes deixa um cheiro de bicho nas coisas
carne pouca pra tanto lodo
………………………bicho – água que escorre dentro d’água
a garganta
groselha rala das lancheiras
………………………caramelo viscoso de  rio
surpresa crosta das cartilhas
………………………estufando piso e farpa dos móveis
as coxas – malha puída de nova
que uma barba crespa
rasga
e carrega nos ombros
.
parecem bombas a mãe dizia
parecem bombas de sucção a mãe dizia
os ralos regurgitando carne e atraso pros jantares
devolvendo a gelatina das coisas
exigindo dos tijolos o que eles não tinham
parecem sangue do meu sangue a mãe dizia

*

seca seca seca
aos sete
anos adquiriu o costume
de salgar lesmas
para controle da febre em pedrinhas

uma colher de sal
para cada, a vó dizia
são animais viscosos

e por isso
– pela pele mole
sem a qual não
seriam brilho
hermafrodita translúcido
quando transam
sem a qual não
chiariam apitos ao desidratar
sem a qual não
seriam vínculo
de carne pouca
com a criança –

demoram feito charque

e por isso a criança demorava
os jantares ainda no claro
os pés na terra fria
de gosma e restos

de resto
pensava não
com o cérebro
com o corpinho
úmido e mole

que nem ela
nem a lesma
eram fortes
como o tardígrado desidratado
que vira e amara
no espaço sideral

*

caranguejo
retroescavadeira
na areia preta

acanto
estrutura espinhosa
sobressalente no corpo crustáceo
serve
para risco traço fosso aberto
na areia preta

entre lama
e fuzileiros navais
um caranguejo
de carne pouca
pra tanto lodo:
ilha das flores

casa
de um caranguejo magro
e fuzileiros navais

ela
ferida preta
fosso aberto
entre peito e útero
a carne pouca
pra tanto lodo

fuzileiros navais
perguntam
fosso aborto
ferida preta
risco traço
perguntam
ilha das flores
e a lama apaga

caranguejo descobre
escava a crosta
risca traça
e a lama apaga

ela
ilha das flores
a carne pouca
pra tanto lodo
crispa espinhosa
e risca traça

 

14182352_1134945879918861_1643662011_n

Ana Carolina Assis é poeta e trapezista, vive em trânsito entre o Rio e São Gonçalo. Mestranda em Teoria da Literatura pela UFF, estuda Adília Lopes e Stela do Patrocínio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s