PEQUENA NOTA | A MORTE A MORTE E A MORTE DE SYLVIA PLATH

por Rafael Zacca

A morte de poetas. Vão cedo. As biografias são apenas a pá que encerra o trabalho iniciado pelas mitologias do mercado. Não morrem em acidentes, suicídios, não morrem com doenças, assassinatos, nem de morte natural. A morte vem cedo, aniquilando a força de linguagem e a linguagem de força que produziram com a época, em favor de sua imagem como estrela, mártir ou maldição.

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Sylvia Plath anunciou por algum tempo o suicídio, em escritos e por tentativa, que realizou, de fato, com a cabeça dentro de um forno em fevereiro de 1963. São muitas as mortes de Sylvia: entre assassinatos (misóginos), suicídios (depressivos) e acidentes (abortivos de muitas espécies), com seu pai, o senhor Otto (o criador de abelhas), com seu marido, Ted Hughes (o terrível “Barba Azul”, segundo a amante Emma Tennant, que o comparou a esse mágico frustrado com sede feminicista de sangue), com a crítica literária, com o aborto, com a difícil decisão do suicídio e com o último cuidado que teve com seus filhos antes de deitar o pescoço sobre a tampa de metal.

A morte, no entanto, não é apenas tema de seus poemas e de sua biografia. É um motor-linguagem. Trazemos aqui duas faces da morte, e uma dupla-face. A “castração do relâmpago” anunciada em Para um filho sem pai se manifesta como órgão extirpado em forma de versos, como a posição de “– As pequenas caveiras, os montes azuis soterrados, o silêncio medonho –”. Repito: a morte não é apenas conteúdo, mas é uma força “estancada em tinta” nos poemas. Por isso, o dupla-face Duas imagens de uma sala de cadáveres combina a constelação abortiva (do primeiro poema) com o breve e minúsculo brilho erótico (do segundo), em uma espécie poética luminescente com o exército da carniça. No caso de Eu estou de pé, cabe ressaltar que as forças sexuais e as tanatológicas trazem como eixo de atuação a horizontalidade, sendo a verticalidade (a poeta de pé) a condição da vida e de sua impossibilidade mesma, a um só tempo.

 

3 POEMAS DE SYLVIA PLATH

tradução: Rafael Zacca

Para um Filho sem Pai

Você vai perceber a ausência, em tempo,
Crescendo ao seu lado, como árvore,
Uma árvore de morte, pálida, um eucalipto australiano –
Definhando, castrado pelo relâmpago – uma ilusão,
O céu como o traseiro de um porco, uma completa falta de atenção.

Mas você ainda é ignorante.
E eu amo a sua estupidez
– Espelho cego em que mergulho os olhos
E encontro apenas o meu rosto, enquanto você se diverte.
É gostoso

Ter você pegando em meu nariz, seu degrau de escada.
Um dia você vai tocar o que há de errado
– As pequenas caveiras, os montes azuis soterrados, o silêncio medonho –
Até lá, seus sorrisos serão um tesouro que encontrei.

*

Eu estou de pé

Mas preferia estar deitada.
Não sou uma árvore de raízes fincadas
Sugando minerais e amor maternal
Para que a cada março eu resplandeça em folhas,
Nem sou a flor mais bela dos canteiros
Delicados, atraindo meu quinhão de “Ais”
Antes do iminente despetalar.
Comparadas a mim, uma árvore é imortal
E uma flor, conquanto pequena, é mais espantosa –
Invejo a longevidade de uma e a ousadia da outra.

Hoje, à luz infinitesimal das estrelas,
As árvores e as flores espalharam seus odores na noite fresca.
Caminho entre elas, mas não me notam.
Às vezes imagino que, dormindo,
Sou sua semelhante –
Penso obscura.
É mais natural se estou deitada;
Assim, o céu e eu conversamos sem segredos.
Serei útil quando estiver enfim deitada:
Aí as árvores serão mãos para mim, e, as flores, demora.

*

Duas imagens de uma sala de cadáveres

I

No dia em que ela visitou a sala de dissecação
Havia quatro homens caídos – pretos perus queimados –
Já meio carunchosos. A morte exalava
Um abraço avinagrado de seu tonel;
Os rapazes de branco começaram a trabalhar.
A cabeça de um cadáver despencara,
E ela mal pode discernir qualquer coisa
Naquele entulho de placas cranianas e couro velho.
Um pedaço pálido de corda os mantinha amarrados.

Em suas jarras, os bebês com narizes de caracol boiam e brilham.
Ele a entrega um coração extirpado como uma herança de ruína.

II

No panorama de fumaça e massacre de Bruegel
Só duas pessoas estão cegas para o exército da carniça:
Ele, vagando no mar azul do cetim de sua
Saia, canta em direção
Ao seu ombro nu, enquanto ela se inclina,
Folheando uma partitura, sobre ele,
Ambos surdos ao violino nas mãos
Da cabeça de morte que à canção ensombrece.
Esses amantes flamengos florescem – não vão longe.

Ainda assim, a desolação – estancada em tinta – poupa a campina idílica
Tola, delicada, no canto inferior da tela.

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Triunfo da Morte, de Bruegel

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