3 poemas | Marcelo Reis de Mello ou o único lugar para ser sincero

por Heyk Pimenta

Quando conseguimos furar o bloqueio do cão-de-guarda-das-gafes-e-atos-constrangedores, por vezes aparece algum traço de sinceridade nos poemas. E isso não tem nada a ver com falar dos próprios defeitos como quem pede esmolinhas, não é estar cagado inteiro e pedir banho a quem passa. Durante o banho, tentar beijar na boca a alma caridosa.
Desde que li os poemas do Marcelo, já em livro, eram do Esculpir a luz, publicado na sua própria editora, a Cozinha Experimental, tive um encontro raro com a sinceridade. O desgraçado cantava os avós, as meninas que quase o mataram, os amigos mortos, sua sujeira, sua pequenez, cantava tudo sem pedir desculpas, sem se gabar, cantava como quem reconhece a correnteza e nada e cansa e entende que não há margem, há só correnteza.
Seis anos depois, com um livro eternamente no prelo, o Marcelo resolve encarar a lei

marcelo-foto-do-sergio

foto de Sergio Cohn

estadual do Megamíni e soltar alguns poemas em livreto. O título é Violens. Durante esse tempo, ele trabalhou calado, e a sensibilidade ferro e tutti-frutti que raramente vemos na sua truculência e humor canalha diários aparece mais do que nunca nos poemas. É realmente maravilhoso como o poema pode ser uma máscara, ou, e esse é o caso, uma unha encravada das que escondemos por baixo das tiras da sandália quando alguém olha nossos pés.
Marcelo, nos três textos que trago aqui, corta também a braçadas a entidade Guilherme Zarvos e nomeia seus delitos como um vidente. Depois conta da insônia após uma manifestação em que estivemos juntos. O cara que acorda sem ter a mãe e sem ter razão enquanto seu país se desfaz entre doninhas.

GUILHERME ZARVOS

há ou havia um crime
que já não se diz, talvez lírico
demais – flor ou projétil:

patas no peito – o som
do tambor: roleta russa
em têmporas

à beira
sabe-se lá do quê, no limite
de um choque

anafilático, um blecaute
psicótico um coma
alcoólico num puteiro de Copacabana

(em que o atendente finge não dar
o rabo e ainda rouba a senha
do cartão de crédito)

havia ou há um criminoso sempre
nascendo as mãos nos bolsos
da frente de algum rapaz imberbe
e teso apesar do pó
de má qualidade

com sangue debaixo das unhas
uma flor obscura na garganta
um nó à altura do intestino
grosso à beira

do mar às 4 da manhã
ou às 2 da tarde
quando já não é mais possível

esconder as olheiras
de quem rala apenas
entre coisas cruciais ao bom funcionamento

do mundo há ou não há
um crime nos seus dentes há
ou não há sangue saliva manchas

de macho nas suas mãos
cortadas você que se entregou
ao crime você que matou o banqueiro

com os lábios envenenados de paixão
sincera que deslocou o púbis com um golpe
de karatê na porta de um pub

que agora mais estranho troncho esquizoide que nunca
beija de língua a cadelinha Edith
canta ao peru aos patos

uma ópera alucinada
sob o sol cianótico da chácara de Maricá
há ou haverá sempre alguém

querendo enterrar-te
vivo num charco mais raso que um
perdigoto mas não – teu nome

sabe ser tão
tão tão
que não cabe dizer um Z, você

o intragável gentil um selvagem
de meias o único hippie
com raízes xamã e grego

desagregado – um zarvoleta
puto ou pacífico você
com suas camisas quadriculadas de flanela

e jeans de florista homicida
ajoelhando-se sobre as rosas
do povo (copos-de-leite)

que seus joelhos ralados são os de quem dá
de cabo a rabo
alguma coisa para deixar na terra

uma gota um fluido: o peso
que baste
para fazer nascer na violenta cerração

em que nos encontramos
algum delito
algum amor.

Piratininga-Niterói, 16.08.2016

 

BRASIL, 01.09.2016, I

há dias em que à beira de um Aleph qualquer
percebo-me subitamente multiplicado

e outros em que entregue ao álcool (dividido
entre uma boca e outra)
sei profundamente como as coisas são.

outro começo possível:

os pés do astronauta são os mesmos
tocos do pedinte que se arrasta
no Largo da Carioca, veterano
de guerra, colecionando moedas no chapéu

ou que acorda, como um pastiche kafkiano
nos pijamas de um inseto comprados
à prazo nas Lojas Americanas.

ou ainda:

há dias em que entregue ao cômico
suplício de, com a mão direita, justiçar meu corpo
caio em silêncio (uma mistura de Ájax e Mickey Mouse)
no Hades entusiástico das propagandas.

(onde há tanto sexo há nenhum)

talvez não seja natural acordar
às três e meia da manhã alarmado por um exército
de pernilongos com esse tipo de pensamento
querendo soar entre irônico
e autocrítico – Ao menos o suficiente
para não passar por completo imbecil.

dizer isso, claro, é apenas meia mea culpa.
mas creiam-me: queria eu estar nos braços
de uma puta bem bonita com sotaque espanhol
que me fizesse ninar depois de um coito leve.

de qualquer modo sei que me acusarão de patife
de branco e de macho, coisas que sou e não sou
à moda do momento.

que fastio! (alegra-me dizer fastio).
tentarei de novo:

BRASIL, 01.09.16, II

houve dias, há dias em que a covardia é a única
nudez possível. Há dias como hoje
em que a pátria, embora continue sendo o último refúgio
dos canalhas, é sobretudo
um destino (eu ia dizer feudal) da nossa tristeza.

sim, talvez uma estranha insônia nasça
desse instante em que, mais do que pernilongos
descobre-se parasitas reais
procurando sangue pela casa.

mas há dias em que a covardia é o café do poeta.
e há dias em que a poesia é o café do covarde.

e de novo, assim que o Rio e seus mendigos
tanto quanto os veranistas de Miami
acordarem ao som das panelas –
agora um tanto mais metálicas que este pequeno sol
de subúrbio – veremos do que são feitas
as palavras, de que carne nasce
o estranho fanal que move a fome.

talvez não sobre outro som além dos caminhões
nos canteiros olímpicos lembrando quão próximos
e quão far away estamos from Greece.

talvez não sobre outro som senão
(como na câmara anecoica de John Cage)
o deplorável coração do mundo.

e quando digo Grécia e digo mundo
espero não soar tão épico que não se possa
figurar a espécie de mediocridade
que elegi para não cair em desconforto.

no fim talvez queira não encontrar
um começo possível para este dia, nem torço
para que depressa se precipite noutra era geológica
ainda mais estúpida, ou menos, apenas
espero conseguir frequentar os mesmos mercados
que o resto da gente
sem olhar pro chão nem pro céu, procurando
entender o ponto médio
em que o macaco ciosamente descobriu
(não o fogo) a aspirina®

1 comentário

  1. Pow! o Zarvos parece muito com o Zarvos, incrível cópia xerox de referências under-zonassulescas, evoé! Quanto ao Marcelo… Bom, essa capacidade de nomear interlocutores gregos-troianos entre solilóquios de enlouquecer Mickey ou Cage, misturar personas míticas em pleno Largo da Carioca – bora q eu pago – cafézinho apenas 1 real!! rss Evoézaço!

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