PEQUENA NOTA | Santo Eusébio ou O silêncio retumbante do sertanejo

por João Gabriel Madeira Pontes

É de chofre: o maranhense Josoaldo Lima Rêgo inaugura seu novo livro, Carcaça (7letras, 2016), com aquilo que pode ser interpretado como um grito de resistência. Estampadas no título do primeiro poema da coletânea, as palavras Jauára Ichê (“Sou um jaguar”), lema de uma cultura antropofágica perdida, deixam claro, logo de início, que a obra em tela não desfila por sendas mansas, ao contrário: segue por um caminho radical, muito distinto daquele percorrido pelos contemporâneos do autor. Nela, jaz um projeto estético selvagem, que rompe com a tendência ao prosaísmo, tão presente nos trabalhos dos poetas brasileiros da atualidade. Trata-se, com efeito, de um acervo de rasgos curtos, que apontam para a construção de imagens bastante fortes, interligadas não pelo uso de conectivos, mas sim pelo valor expressivo dos versos.
Essa economia de vocábulos faz com que Carcaça seja, acima de tudo, uma verdadeira cartografia do silêncio. As vozes que se insinuam ao leitor advêm ou de um passado quase imemorial (v.g.: os aedos gregos), ou de grupos social e politicamente oprimidos (v.g.: os desapossados do campo, a exemplo do belíssimo Eusébio, elegia a Eusébio Ka’apor, líder indígena, assassinado em 2015, no Alto Turiaçu, acredita-se que a mando de madeireiros), ou daqueles que desvanecem sem deixar rastros (v.g.: o físico italiano Ettore Majorana, dado como desaparecido em 1938, sob circunstâncias misteriosas). A própria geografia dos lugares que se apresentam no livro remete a espaços distantes ou completamente ausentes, povoados por heróis não nascidos e encharcados por um clima de desolação.
Também existe, na lírica de Josoaldo, um humor brutal, tenso, que se vale do desconforto do leitor para provocar risadas engasgadas. Tal “comédia da inquietação” se faz perceber nas estrofes do poema 5 da seção Motins, que, inclusive, estruturam-se de modo a simular o começo de uma piada:

três pessoas decapitadas
uma poeta árabe
um brasileiro
outro qualquer

três pessoas decapitadas
a filósofa judia
a professora
o consultor de empresas

mais três pessoas decapitadas
o borracheiro [que comprou pneus
roubados e foi enviado ao
presídio] o jornalista japonês
[por pensar que a guerra havia
acabado] e o cara do mangá

Carcaça é, pois, um livro que não promove concessões. Suas páginas canalizam o discurso fragmentado dos nômades, dos desterrados, ironia sertaneja que se coloca em franca oposição à delicadeza ilusória do litoral. E é assim, meus amigos, que são escritos os bons poemas: “com pólvora e razão nas entranhas”.

Leia mais sobre o livro em Resenha de Pádua Fernandes e aqui mesmo na Nota de Heyk Pimenta.

 

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