I PRÊMIO BAIXO MÉIER DE POESIA | VENCEDORES – Adelaide Ivánova

Adelaide Ivánova publicou “O martelo” (Garupa, no Brasil, e Douda Correria, em Portugal), “Polaroides” (Cesárea), edita o zine MAIS PORNÔ PFVR!, e é

Piriguetismo de guerrilha (Troféu Zé Celso)
Prêmio para poetas que tematizam o tesão, o corpo do prazer e safadeza que o povo gosta

 

1. Adelaide, o nome desse prêmio veio de um poema seu. Conta pra gente, o que é fazer piriguetismo de guerrilha?

AI: Acho que piriguetismo de guerrilha é o braço armado da proposição que Audre Lorde faz para o uso do erótico. Antes, explico o que quero dizer com “arma”: podem ser protestos, hashtags, grupos de leitura, grupos de consciousness raising, boicotes, intervenções, ocupações — enfim qualquer ação organizada e COLETIVA, como a que Maria Felipa* organizou.

Em Sister outsider, no ensaio “Uses of the erotic: erotic as power”, ela diz: “The erotic is a resource within each of us that lies in a deeply female and spiritual plane, firmly rooted in the power of our unexpressed or unrecognized feeling. In order to perpetuate itself, every oppression must corrupt or distort those various sources of power within the culture of the op- pressed that can provide energy for change. For women, this has meant a suppression of the erotic as a considered source of power and information within our lives.”
Reconsiderar o erótico feminino como sagrado, mas também como poder, e entender que não é por acaso que não estamos autorizadas a ativá-lo: isso é o braço teórico do piriguetismo de guerrilha. O braço “armado” é aquele que, organizado, vai pro espaço público e faz demandas.

2. E poesia e política, transam? Por quê?

AI: Transam muito. Tipo os poetas da era estalinista. A poesia era fundamental não somente pra ajudar a compreensão dos tempos, mas para mobilizar. E, depois, com o tempo, para contar essa historia. Contá-la, vale dizer, pelo testemunho do oprimido real (viva Mandelstamm) e não pela invenção de uma retórica de opressão, que é o que hollywood fez/faz. Por exemplo: essa confusão entre achar que estalinismo e o projeto marxista são a mesma coisa, vem muito da narrativa safada de hollywood.

A poesia, por ser de todas as artes a mais próxima do pobre-tariado, tem o maior potencial de transar bastante com a política. Enquanto em outras vertentes artísticas a pessoa precisa de uma parafernalha da porra pra produzir, na poesia os meios de produção são os mais simples possíveis (se a sujeita tiver boa memória e um gogó bom, já basta — o slam das mina, os repentistas tão aí pra provar. O próprio Mandelstamm não podia escrever os poema dele por causa da polícia, ficava tudo decorado na cabeça da mulher dele) fazendo dela uma atividade democrática, acessível. Acho que só quem não transa é quem acha que poesia é poesia e política é política.

3. E poesia e tesão, fazem assembleia?

AI:  Mais do que assembleia, poesia e tesão fazem a revolução. Agora, se o poeta for isentão nem catuaba dá jeito ;)

 

–x–

 

*BÔNUS: o poema de Adeilaide que deu nome ao prêmio pode ser lido na revista Modo de Usar: http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2016/12/serie-as-enterradas-vivas-adelaide.html

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