Autor: Rafael Zacca

Poeta e crítico literário, cursou a graduação em História e o mestrado em Filosofia na Universidade Federal Fluminense. É membro do corpo editorial da Revista Chão, onde mantém a coluna Sucesso de Sebo. Integra, no Rio de Janeiro, a Oficina Experimental de Poesia.

3 poemas | Frederico Klumb

por Rafael Zacca

criança triste diante de guerras que não viu

Nas promessas sempre vivem umas quantas crianças, ou, pelo menos, um tom de fábula dos livros infantis. Nelas o que se recusa, já se disse, é justamente a renúncia. É isso o que vive no tom de voz melancólico de Frederico Klumb ao atravessar tempos, lugares e as obras de outrxs artistas, ao carregar, nos seus olhos cineastas, feridas “de guerras / que não viram”. E, tal como as promessas, seus versos surgem sempre diante da probabilidade quase certa do acidente: “a última noite / no corredor da morte / é a mais calma”. O que se recusa, já se disse, é justamente a renúncia. Nos poemas aqui apresentados, essa recusa se manifesta na recriação de pequenos instantes cinematográficos, confundidos à vida do eu-lírico. Junto ao tom melancólico, portanto, quero chamar a atenção para o pequeno frêmito que se agita no fundo de sua poesia: “o sono dos peixes / de olhos abertos”. Ou: filma-se, de olhos fechados. Em um poema publicado recentemente na revista Modo de Usar, Frederico fixa a imagem de sua poesia até aqui na forma de um amor:

………………..você a me dizer
………………..que o que a gente têm é uma pequena
………………..revolução industrial

………………..linda e terrível

Perigo e redenção se confundem em uma mesma expressão. Certa vez, Fred me contou de um acidente que teve no trepa-trepa quando criança. Deve ter batido o queixo 7 vezes, e passou por umas quantas cirurgias. Quando conversamos, tenho a impressão de que esse acidente se repete, e o Fred segue vivo como as crianças seguem vivas depois de pancadas inacreditáveis. Seguem, então, três poemas de F. Klumb.

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ANTOLOGIA ISOPORZINHO-ARRASTÃO

Um conhecido jornal golpista amanheceu com a notícia “Guarda Municipal planeja revistar ônibus que vão para orla”. Sabemos quem será revistada: essa gente que, por aqui, na longa noite dos 500 anos, é condenada de antemão como marginal.

Nos anos 1990 ficou famosa a tal da “onda de arrastões”, que teriam “justificado” uma série de medidas “preventivas” (leia-se: proibitivas) para gentrificar a Zona Sul. Sabemos também que não é só o governo: toda uma aristocracia mesquinha tem lutado para manter a população favelada longe das praias e dos bairros ricos.

A OEP saúda a Antologia Isoporzinho-Arrastão, os rolezinhos, as práticas de justa ocupação do espaço por todo e qualquer cidadão, e repudia, ontem como hoje, as medidas civil-militares que querem criar cordões de isolamento entre as pessoas.

http://isoporzinho-arrastao.tumblr.com/
http://isoporzinho-arrastao.tumblr.com/
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‘Um espectro ronda a praia de Ipanema, o espectro do ARRASTÃO! (…) NÃO É SÓ PELO BRONZEADO! MANTENHA A AREIA, A MAROLA, A BRISA E AS MATRACAS LIVRES!!!’

PEQUENA CRÍTICA | AS VÍSCERAS DELICADAS

Texto publicado originalmente na revista portuguesa Relâmpago, nº33.
Por Marcelo Reis de Mello

 

Delicadeza é uma palavra ambígua, difícil. Poderíamos usá-la para denunciar o lirismo comedido e afetado, como fez João Cabral em sua Antiode: “Delicado, evitava / o estrume do poema, / seu caule, seu ovário, suas intestinações”. E muito antes do pernambucano, o simbolista francês Arthur Rimbaud já tinha escrito: “Por delicadeza / Perdi minha vida”. Mas também há quem enxergue na delicadeza uma potência positiva e uma sutil resistência à brutalidade do mundo. Além disso, a palavra sempre foi usada para enfatizar a perícia técnica e a sensibilidade invulgar dos poetas, não sendo difícil ler por aí que os versos de Drummond ou Bandeira – para ficarmos apenas com os exemplos canônicos – são de uma delicadeza extraordinária.

Tudo isso pra dizer que o livro Sentimental – o sexto do poeta carioca Eucanaã Ferraz[1] – é certamente um livro delicado. Mas não é doce. Nem limpinho. Seu coração é uma víscera empedrada: “Quase só músculo a carne dura. / É preciso morder com força”. Dentes fortes sim, sem dúvida, mas não para despedaçar ou despoetizar a poesia, como reivindicam alguns entre os seus pares. Ferraz não é um poeta barulhento, de punho cerrado e boca espumante. Mas nos melhores momentos a sua poesia é vigorosa, é radical. Quando o livro Desassombro foi lançado, em 2002, Francisco Bosco afirmou acertadamente que Eucanaã Ferraz trabalha na “radicalidade dos desextremos”. E é isso que o leitor encontra em todos os seus livros, inclusive no último, onde se recombinam os temas e as formas cristalizadas da tradição literária, para deslindar suas brechas, os interstícios, as margens dentro das margens.

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PEQUENA CRÍTICA | MISTÉRIO RITMO | ARTURO CARRERA

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“O homem mais portátil do mundo” | Arturo Carrera | Trad. Marcelo Reis de Mello | Azougue

por Marcelo Reis de Mello

Arturo Carrera é um poeta, crítico e tradutor argentino nascido no ano de 1948, na pequena Pringles, província de Buenos Aires. Considerado um dos personagens mais representativos da poesia contemporânea, inscreve-se no panteão da vanguarda latinoamericana que Néstor Perlongher viria a chamar de Neobarroso. Sua escrita atravessa muitos momentos diferentes, por onde entrevemos uma imensa teia de afinidades e influências, a começar pela conterrânea Alejandra Pizarnik, passando por Haroldo de Campos, os cubanos Lezama Lima e Severo Sarduy, a uruguaia Marosa di Giorgio, mas também o naturalista e escritor Guillermo Enrique Hudson, Henri Michaux e Mallarmé, para citar apenas alguns entre os mais recorrentes.

O texto que apresentamos aqui, “Mistério Ritmo”, pertence ao seu livro Ensayos Murmurados (Mansalva, 2009), cuja tradução ao português foi publicada no volume O homem mais portátil do mundo (Azougue / Circuito, 2014). A linguagem ensaística e a poesia (mais…)

PEQUENA NOTA | A MORTE A MORTE E A MORTE DE SYLVIA PLATH

por Rafael Zacca

A morte de poetas. Vão cedo. As biografias são apenas a pá que encerra o trabalho iniciado pelas mitologias do mercado. Não morrem em acidentes, suicídios, não morrem com doenças, assassinatos, nem de morte natural. A morte vem cedo, aniquilando a força de linguagem e a linguagem de força que produziram com a época, em favor de sua imagem como estrela, mártir ou maldição.

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Sylvia Plath anunciou por algum tempo (mais…)

3 poemas | Ana Carolina Assis

por Rafael Zacca

um bicho magro assustado diante dos embrutecidos

Susan Buck-Morss sugeriu há alguns anos que tornar-se adulto no capitalismo é produto de uma tática anestesiante. Não é coincidência que, ainda no século XIX, no auge do desenvolvimento industrial, tenham proliferado tanto as perfumarias quanto os entorpecentes por via olfativa, compensando (e/ou reforçando) a anestesia generalizada. Talvez seja por isso que os poemas de Ana Carolina Assis, uma poeta de São Gonçalo, a um só tempo sejam objeto de comoção e estranhamento. Seus versos, para falar com seu próprio idioma “crispado”, “demoram feito charque”, e pensam “não / com o cérebro / [mas] com o corpinho / úmido e mole”. Uma proliferação de bichos, texturas e cheiros – na solidão terrível dos versos curtos, qualquer coisa como uma criança sem a companhia de outras crianças – tentam, não sem algum desespero, uma reeducação estética às pressas. Não querem, no entanto, ensinar-nos qualquer humanidade. A criança ou os bichos querem devolver alguma coisa que nos foi tomada, ou negada – “os ralos regurgitando carne e atraso pros jantares”. Os adultos que comam sozinhos, parece dizer Ana; sem nomes para (mais…)

OFICINA | Parque de versões

por Luiz Guilherme Barbosa

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Steeplechase Park por volta de 1957

Consta que Lydia Davis preparou um índice remissivo composto por uma única linha: “Cristã, não sou”. Também não pareceu ser este o caso dos poetas publicados aqui enquanto os seus poemas aconteciam subvertendo de uma só vez dois mandamentos do Decálogo: pois furtaram versos, e deram falso testemunho dos versos roubados nos poemas novos. Um dia o personagem de uma novela que líamos em sala de aula numa turma do ensino médio soltou um palavrão – Caralho! – mas a aluna que lia em voz alta para a turma corou, se recusou a ler, disse que era cristã. E então houve o que houve: o respeito à sua posição, e a crítica à relação com a linguagem – ela, como todos da turma, leu impresso no papel o palavrão, que soou silenciosamente nas cacholas de cada um e de todos, e assim ninguém deixou de ver, ler e escutar em si mesmos o esporro de um palavrão cuja voz foi roubada. Às vezes tudo se resume às possibilidades do alfabeto: com ele se produzem mandamentos, palavrões e poemas. Acontece que (mais…)

PEQUENA CRÍTICA | Um acidente para começar o dia | Marília Garcia e microgeografia

por Julya Tavares

Numa entrevista durante a FLIP desse ano, Marília Garcia se referiu à poesia como “um quadrado de respiração em meio ao caos”, uma espécie de existência possível que atua por um viés micropolítico, transformando partículas mínimas: uma vida. O que mais me chama atenção em sua escrita é atravessado justamente por esse olhar – “um tipo de lente pra ver de outra maneira” – que percebe e lida com a poesia como um dispositivo capaz de reconfigurar nossa percepção das coisas, deslocando as relações anteriormente estabelecidas, aquilo que seria previsível, para trazer à vista os encontros e tensões ainda possíveis. Manter as linhas – das lembranças, das vivências, dos poemas – não como de fato teriam ocorrido, mas de alguma maneira redesenháveis, como numa cartografia aberta. (mais…)