pequena crítica

PEQUENA CRÍTICA | CHACINA NEVER STOPS

por Rafael Zacca

(Sobre alguns aspectos de A Voz do Ventríloquo, de Ademir Assunção.)

“O pior dos temporais aduba o jardim”. Com essa citação de “Ninguém vive por mim”, de Sérgio Sampaio, Ademir Assunção abre seu livro, A Voz do Ventríloquo (Edith, 2012). Essas palavras sugerem um desastre natural, uma catástrofe, para o sofrimento extremo, de onde surgirá o jardim. Para compreendermos esse jardim, devemos nos perguntar o que é este temporal e o que é este solo sobre o qual a torrente se derrama.

Um poema declara que “Chacina never stops” (“A chacina nunca para”) (p.17):

troia destruída, restam-nos
as ruínas de bagdá, chuva de mísseis,
capacetes made in united states
of america, mãos decepadas e olhares
que ainda miram lugar nenhum.

(mais…)

PEQUENA CRÍTICA | DOIS POETAS SEM QUALIDADES – RESENHA DOS LIVROS DE GIOVANI BAFFÔ E THIAGO CERVAN

por Marcelo Reis de Mello

Um dos momentos mais polêmicos e frutuosos no debate sobre o lugar da poesia contemporânea foi, sem nenhuma dúvida, o lançamento em Portugal do livro “Poetas sem qualidades” (2002) com prefácio-bomba de Manuel de Freitas, estudado a partir de então como um arauto dessa nova dicção lírica. Poetas sem qualidades são para Freitas (que aí se inclui) os que escrevem dentro e a partir de um mundo também sem qualidades, reificado, mercantilizado; aqueles que não negam os influxos da linguagem publicitária ou da cultura pop, exercendo por via de um coloquialismo escarnecido as suas agonias urbanas, enfim: os que sabem que sonham sonhos com códigos de barras.

Tanto Giovani Baffo quanto Thiago Cervansão também “poetas sem qualidades”. Ambos escrevem nos seus poemas curtos a experiência da cidade e entendem a escritura como exercício identitário, onde o lirismo emerge não dos devaneios transcendentes isolados da realidade, mas da relação direta com as coisas e acontecimentos do mundo, com os livros, as mensagens publicitárias misturadas aos poemas espirituosos de Leminski, com o amor difícil dos quartinhos abafados, as palavras anotadas embaixo desta luz sem aura dos postes de mercúrio.

(mais…)

PEQUENA CRÍTICA | O AMOR E A QUEDA: CRÍTICA DE “O AMOR E DEPOIS”

por Rafael Zacca

O livro de Mariana Ianelli nos apresenta a imagem de um amor mítico. Qualquer coisa harmoniosa, ao abrigo da grande crise. Ainda assim, O amor e depois (2012) é um livro cristão, de um cristianismo antigo e enigmático, muito próximo do judaísmo. Mas não se engane: não se trata de salmos ao Senhor, nem de odes ao cristo. É cristão por nos contar a história da queda. Alguém provou da maçã, e então o mundo se tornou sofrimento, e devoração do tempo.

Um dia um fruto caído

O licor ungido na língua

O sangue fabricando amor

A morte é um escarlate súbito.[1]

[“Fruto Caído”, p.75.]

(mais…)

PEQUENA CRÍTICA | BORDADOS SÃO MELHORES DO QUE SELOS?

por Heyk Pimenta

(Resenha do livro Da arte das Armadilhas, de Ana Martins Marques, Companhia das Letras, 2011.)

Todos nós já fomos presas das armadilhas do amor, e mais vezes ainda fomos presas das armadilhas da linguagem (as de amor, conhecemo-las de cor). Quantas vezes nos enganamos sobre o sentido de uma palavra, e mais tarde, mais crescidos, nos enganamos com o sentido de uma conversa inteira? E para aqueles que “lambem as palavras e se alucinam”,  quantas vezes fomos totalmente seduzidos, apreendidos por algo lido ou ouvido, em qualquer idade, e essas palavras se revelaram para nós como uma porta que continha um mundo inteiro para se passear? Enfim, somos experientes presas fáceis às armadilhas do amor e da linguagem, mas teriam elas algo em comum? Essa é a pergunta que faz Ana Martins Marques em Da arte das armadilhas, publicado em 2011 pela Companhia das Letras.

(mais…)