I PRÊMIO BAIXO MÉIER DE POESIA | VENCEDORES – Ítalo Diblasi

Ítalo Diblasi publicou “O limite da navalha” (Garupa), e é

Dama do lotação
Prêmio para poetas que tematizam o caos, o baixio, a noite preta, o bicho pegando e a viração

 

1.  Ítalo, quem são as Damas do Lotação da história da poesia brasileira, pra você?

ID: Entre as muitas Damas destacaria Murilo Mendes (o catolicismo mais desviado de que se tem notícias do lado de cá), Roberto Piva, Hilda Hilst, Stela do Patrocínio, Guilherme Zarvos. Isso para não falar dos nossos contemporâneos – uma verdadeira fauna de loucos e santos, como vimos na indicação do Baixo Méier.

2. A poesia é sempre maldita ou isso vem de um esforço de certxs poetas?

ID: Capciosa essa pergunta, mas vou arriscar que toda a poesia carrega lascas desse elemento maldito (veja o medo de Platão, o primeiro Censor). Ainda assim, entendo por poeta maldito aquele que deliberadamente coloca em prática e enuncia um modo de estar no mundo que se opõe às normas vigentes (de comportamento, hábitos, conceitos e escrita) e nesse sentido seria este “esforço” de que falam. Uma afirmação estética. Em outras palavras, há aqueles para quem a poesia é uma espécie de segredinho sujo, que abre um buraco no peito do sujeito e faz emergir um campo onde o pensamento pode trabalhar.

3. E o seu próximo livro? Tá nascendo? Quer contar pra gente um pouquinho que trem é esse?

ID: Ele vem aí, mas não tenho pressa. Alguns poemas já soltei em revistas durante 2017. A ideia é construir o cenário de um apocalipse cotidiano, uma luta perdida e doce entre eros e tânatos. O título que tenho é “Paisagem para um dilúvio”. Depois disso só escreverei poemas de amor.

I PRÊMIO BAIXO MÉIER DE POESIA | VENCEDORES – Adelaide Ivánova

Adelaide Ivánova publicou “O martelo” (Garupa, no Brasil, e Douda Correria, em Portugal), “Polaroides” (Cesárea), edita o zine MAIS PORNÔ PFVR!, e é

Piriguetismo de guerrilha (Troféu Zé Celso)
Prêmio para poetas que tematizam o tesão, o corpo do prazer e safadeza que o povo gosta

 

1. Adelaide, o nome desse prêmio veio de um poema seu. Conta pra gente, o que é fazer piriguetismo de guerrilha?

AI: Acho que piriguetismo de guerrilha é o braço armado da proposição que Audre Lorde faz para o uso do erótico. Antes, explico o que quero dizer com “arma”: podem ser protestos, hashtags, grupos de leitura, grupos de consciousness raising, boicotes, intervenções, ocupações — enfim qualquer ação organizada e COLETIVA, como a que Maria Felipa* organizou.

Em Sister outsider, no ensaio “Uses of the erotic: erotic as power”, ela diz: “The erotic is a resource within each of us that lies in a deeply female and spiritual plane, firmly rooted in the power of our unexpressed or unrecognized feeling. In order to perpetuate itself, every oppression must corrupt or distort those various sources of power within the culture of the op- pressed that can provide energy for change. For women, this has meant a suppression of the erotic as a considered source of power and information within our lives.”
Reconsiderar o erótico feminino como sagrado, mas também como poder, e entender que não é por acaso que não estamos autorizadas a ativá-lo: isso é o braço teórico do piriguetismo de guerrilha. O braço “armado” é aquele que, organizado, vai pro espaço público e faz demandas.

2. E poesia e política, transam? Por quê?

AI: Transam muito. Tipo os poetas da era estalinista. A poesia era fundamental não somente pra ajudar a compreensão dos tempos, mas para mobilizar. E, depois, com o tempo, para contar essa historia. Contá-la, vale dizer, pelo testemunho do oprimido real (viva Mandelstamm) e não pela invenção de uma retórica de opressão, que é o que hollywood fez/faz. Por exemplo: essa confusão entre achar que estalinismo e o projeto marxista são a mesma coisa, vem muito da narrativa safada de hollywood.

A poesia, por ser de todas as artes a mais próxima do pobre-tariado, tem o maior potencial de transar bastante com a política. Enquanto em outras vertentes artísticas a pessoa precisa de uma parafernalha da porra pra produzir, na poesia os meios de produção são os mais simples possíveis (se a sujeita tiver boa memória e um gogó bom, já basta — o slam das mina, os repentistas tão aí pra provar. O próprio Mandelstamm não podia escrever os poema dele por causa da polícia, ficava tudo decorado na cabeça da mulher dele) fazendo dela uma atividade democrática, acessível. Acho que só quem não transa é quem acha que poesia é poesia e política é política.

3. E poesia e tesão, fazem assembleia?

AI:  Mais do que assembleia, poesia e tesão fazem a revolução. Agora, se o poeta for isentão nem catuaba dá jeito ;)

 

–x–

 

*BÔNUS: o poema de Adeilaide que deu nome ao prêmio pode ser lido na revista Modo de Usar: http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2016/12/serie-as-enterradas-vivas-adelaide.html

I PRÊMIO BAIXO MÉIER DE POESIA| VENCEDORES – Josely Vianna Baptista

Josely Vianna Baptista é poeta e tradutora, publicou ArCorpografiaA concha das mil coisas maravilhosas do velho caramujo, Roça barroca, e é

Bonytos de corpo
Prêmio para poetas que têm a forma, os procedimentos e as máquinas do poema como parte fundamental de suas obras

 

1. Josely, você tem aqueles primeiros poemas “aerados”; também já foi identificada como poeta neobarroca; e, em publicação recente, o Roça barroca, andou buscando a interseção entre as formas da tradução e da poesia. Você acha que a sua poesia tem um projeto que unifica todos os outros?

JVB: Sim. Além do exercício da poesia, o trabalho de tradução de peças mitopoéticas ameríndias e de obras literárias hispanoamericanas, que desenvolvo há 30 anos, me mantém próxima de importantes universos culturais iberoameríndios. E minha formação em Literatura Espanhola e Hispano-americana propiciou, também desde o início, um convívio com o Barroco clássico espanhol, presente desde sempre nas diversas sínteses dos “barrocos” latino-americanos. Agora estou pesquisando o barroco ameríndio, e vou retomar a nunca abandonada  aeração dos poemas (que, diga-se de passagem, não tem a ver apenas com poesia visual). Meu trabalho vem sendo construído de olho em contextos culturais plurais e excêntricos, e se insere, nesse sentido, numa “poética mestiça”, como diz Cecília Vicuña em “The Oxford Book of Latin American Poetry”.  Lido livremente com o hibridismo sígnico – aliás, presente em nossa literatura desde o início, tendo comparecido aos banquetes modernistas e à mesa de seus sucessores, e encontrado, também, na própria transposição do barroco europeu (nos séculos XVI e XVII) à realidade tropical. Mas é movida por um impulso “hiper-barroco” multiétnico e pluritemporal que busco os entrecruzamentos do mito, das narrativas verbais e visuais, da memória, das línguas etc. E nessa coexistência de contradições que conformam a cultura brasileira, acho que a tela rútila das pálpebras e clarões arcaicos podem se conjugar sem fôrmas de estilo que sejam camisas de força ou algo parecido.

2.  Você é também uma tradutora impressionante. Você acha que a tradução é uma “forma” que você experimenta? Nesse sentido, você acha que a Associação Brasileira de Tradutores deveria suingar e fazer um prêmio com esse naipe?

JVB: Toda tradução literária deve ter o cuidado com a “forma” no centro de sua prática, né? Não sei se a Abrates tem ou não algum prêmio para tradutores literários, estou por fora. Mas acho que mesmo as instituições que tradicionalmente já concedem prêmios a tradutores, como a Câmara Brasileira do Livro e a Biblioteca Nacional, deveriam ampliar sua esfera de ação e instituir um programa de bolsas de tradução (principalmente) e de prêmios de “tradução para o português de obras ameríndias” e  de “tradução para línguas ameríndias de obras de autores brasileiros”. Pois ainda que, especialmente desde os anos 90, como diz Betty Mindlin em seu texto sobre “Roça barroca”, “os índios escrevam, sejam escritores e professores bilíngües”, há uma lacuna que seguirá intransponível se não for feito um esforço poético-tradutório decisivo nesse sentido. É preciso construir essa “ponte”, e para isso é importante que haja um suporte adequado de instituições que deveriam prezar pela inclusão, na “literatura brasileira”, das oraturas, das manifestações de tradição oral (e, hoje, também escrita) em línguas ameríndias do Brasil. Acho que esse seria um primeiro passo para efetivar, aos poucos, essa ponte de mão dupla. No caso das oraturas ameríndias, os poetas-tradutores teriam de se aliar aos índios e aos valorosos antropólogos, linguistas e exegetas das culturas autóctones do país, aportando seu empenho e talento poético para que manifestações até hoje praticamente circunscritas ao âmbito etnográfico possam ser conhecidas também como peças de arte verbal. E ainda, com esse gesto inovador, seria interessantíssimo instituir bolsas de criação para estimular os criadores ameríndios a escrever em suas próprias línguas. Uma corriente alterna. Já pensou que maravilha um país com uma literatura/oratura diversamente rica a esse ponto? Quantas são as línguas vivas hoje em dia só no Brasil? E quantas dessas línguas nós, tradutores brasileiros em atividade, conseguimos sequer nomear? Essa é minha proposta para  a Abrates e para os outros órgãos interessados em salvar, do “ossuário do esquecimento” (palavras de Roa Bastos), esses tesouros todos. Torço para que, mesmo num país como o nosso, que se encandeia principalmente com o outro que é seu mesmo (ou seja, a cultura ocidental), ainda seja possível um movimento firme de abertura para as poéticas dos índios brasileiros, e de intercâmbios extensivos também a outras línguas ameríndias de países vizinhos. Bem, desculpe a respostona, mas foi em prol da boa e velha questão da “forma”, das formas ancestrais do Ayvu Rapyta, da  Ilíada, do Popol Vuh, da Odisseia  – enfim, da “madrugada das formas poéticas” onde tudo começou.

I PRÊMIO BAIXO MÉIER DE POESIA | VENCEDORES – Thiago Gallego

Thiago Gallego publicou “Canções para o fim do mundo” (7Letras/Megamini), dirigiu “Pequenos atos de desaparecimento” e é

Diva do Méier
Prêmio para poetas mais arrasantes, transantes, suingados e absurdos da pista, da noite e sonhos dos sonhadores

 

1. Tem gente dizendo que Thiago Gallego é o poeta mais desejado do Brasil. Como você se sente com essa premiação? É merecida?

TG: Fico muito lisonjeado e, pra ser bem honesto, no atual estado de coisas, me preocupo menos se é merecida e mais em poder colher os frutos. rs

2. Pergunta pra causar problema: se você pudesse, daria esse prêmio para quem?

TG: Sem qualquer dúvida dividiria entre Cristina Flores, Marcio Junqueira e Natasha Félix.

3. E essa boca aí, tá só beijando ou tá falando sobre arte também? Você tá com algum projeto novo (com poesia, com cinema) pela frente?

TG: Há algum tempo trabalhando no roteiro de um longa com outros 3 amigos e, a passos lentos, atualizando o blog do coletivo Bliss não tem bis, que é tocado junto com Clarissa Freitas, Lucas Matos e Marcinho supracitado.

Com relação a projetos próprios em poesia/cinema, bastante parado. Sou lento todavida pra assuntos pessoais e termino por administrar mal o tempo que sobra do trabalho formal. Tem sido uma questão. Mas existe vontade, seguimos tentando.

I PRÊMIO BAIXO MÉIER DE POESIA | VENCEDORES

lista definitiva dos premiados pelo i prêmio baixo méier de poesia
divulgada no dia 13 de dezembro de 2017
em cerimônia muito vulgar:

Dama do lotação:
(Prêmio para poetas que tematizam o caos, o baixio, a noite preta, o bicho pegando e a viração)
-> Ítalo Diblasi

Piriguetismo de guerrilha:
(Prêmio para poetas que tematizam o tesão, o corpo do prazer e safadeza que o povo gosta)
-> Adelaide Ivánova

Bonytos de corpo:
(Prêmio para poetas que têm a forma, os procedimentos e as máquinas do poema como parte fundamental de suas obras)
-> Josely Vianna Baptista

Diva do Méier:
(Prêmio para poetas mais arrasantes, transantes, suingados e absurdos da pista, da noite e sonhos dos sonhadores)
-> Thiago Gallego

Prazer total enriquecimento zero:
(Prêmio para editoras miúdas, corajosas e que apostam no autoral e em projetos editoriais ousados e que financeiramente estão sempre no fio da navalha)
-> Cozinha Experimental

iPoeta:
(Prêmio para poetas que performam online nas redes sociais e que enchem nossas vidas de interessância e brincadeira)
-> Ismar Tirelli Neto

Maior Poeta de Todos os Tempos:
(Prêmio para o poeta mais alto presente no recinto. Os poetas foram medidos com fita métrica)
-> Thadeu C Santos

Cágado de Ouro:
(Prêmio pelo conjunto da existência poética: trajetória, obra, suingue, peito aberto e pernas pra que te quero)
-> Guilherme Zarvos

Nos braços da massa:
(Prêmio surpresa para poetas que são aclamados pelo júri popular no dia da cerimônia)
-> Guilherme Zarvos

PROGRAMAÇÃO | NOVEMBRO 2017

Onde > Imperator, Méier, Rua Dias da Cruz, 170 – Sala de Exposições, 2º andar
Quando > Quartas-feiras | 19h30 – 21h30

01/11 > Roda temática de conversa e produção: ECONOMIA

08/11 > Roda temática de conversa e produção: RITUAL

15/11 > COMEÇANDO AS 16H > I Banquete Experimental de Poesia com Ricardo Aleixo e Laura Formighieri

22/11 >Roda temática de conversa e produção: TRANSPORTE

29/11 > Lanternagem: traga seus poemas com cópias pra gente discutir junto

PROGRAMAÇÃO | OUTUBRO 2017

OEP em outubro é Geral.

Em outubro seguimos dando uma geral, juntando geral, geral num braço só. Traz uma ideia, uma proposta, um texto, uma vontade. Pode ser culinária, mecânica, astrologia. Pode ser poesia também. Topa?

Onde > Imperator, Méier, Rua Dias da Cruz, 170 – Sala de Exposições, 2º andar
Quando > Quartas-feiras | 19h30 – 21h30

04/10 > Geral #05

11/10 > Geral #06

18/10 > Geral #07

25/10 > Geral #08