PROJETOS | CARAVANA ALMANAQUE 9

por heyk pimenta

uma vez o tom zé falou que na venda do pai dele o único assunto de todos os dias era ética. ficava lá a freguesia falando sobre como as coisas pra fazer tinham que ser feitas. como as coisas feitas tinham que ter sido feitas. o gil também tinha pai com venda. a ética da agricultura, da roupa lavada no rio, de tocar boi, de dar tiro. tiro pro alto é uma, pra frente é outra. tem cara de pequena ética. mas é ética mesmo.
ficar junto é condição pra ser gente. ser gente, por isso, é a coisa mais difícil da vida. o pior é quando é fácil. o tudo certo nada resolvido é um bom jeito de entubar as porcarias. (mais…)

PEQUENA CRÍTICA | AS VÍSCERAS DELICADAS

Texto publicado originalmente na revista portuguesa Relâmpago, nº33.
Por Marcelo Reis de Mello

 

Delicadeza é uma palavra ambígua, difícil. Poderíamos usá-la para denunciar o lirismo comedido e afetado, como fez João Cabral em sua Antiode: “Delicado, evitava / o estrume do poema, / seu caule, seu ovário, suas intestinações”. E muito antes do pernambucano, o simbolista francês Arthur Rimbaud já tinha escrito: “Por delicadeza / Perdi minha vida”. Mas também há quem enxergue na delicadeza uma potência positiva e uma sutil resistência à brutalidade do mundo. Além disso, a palavra sempre foi usada para enfatizar a perícia técnica e a sensibilidade invulgar dos poetas, não sendo difícil ler por aí que os versos de Drummond ou Bandeira – para ficarmos apenas com os exemplos canônicos – são de uma delicadeza extraordinária.

Tudo isso pra dizer que o livro Sentimental – o sexto do poeta carioca Eucanaã Ferraz[1] – é certamente um livro delicado. Mas não é doce. Nem limpinho. Seu coração é uma víscera empedrada: “Quase só músculo a carne dura. / É preciso morder com força”. Dentes fortes sim, sem dúvida, mas não para despedaçar ou despoetizar a poesia, como reivindicam alguns entre os seus pares. Ferraz não é um poeta barulhento, de punho cerrado e boca espumante. Mas nos melhores momentos a sua poesia é vigorosa, é radical. Quando o livro Desassombro foi lançado, em 2002, Francisco Bosco afirmou acertadamente que Eucanaã Ferraz trabalha na “radicalidade dos desextremos”. E é isso que o leitor encontra em todos os seus livros, inclusive no último, onde se recombinam os temas e as formas cristalizadas da tradição literária, para deslindar suas brechas, os interstícios, as margens dentro das margens.

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PROGRAMAÇÃO | NOVEMBRO 2016

Onde > Imperator, Méier, Rua Dias da Cruz, 170 – Sala de Exposições, 2º andar
Quando > Quartas-feiras | 19h – 21h30

02/11 > Mostra de Processos com Heyk Pimenta
09/11 > Traga seu poema para a lanternagem | Leitura e análise coletivas dos poemas de quem chegar
16/11 > “Versos desfigurado” – oficina de criação literária com Marcelo Reis de Mello
23/11 > Leitura e debate sobre o livro Miolos frescos, de Jeanne Callegari (Ed. Patuá, 2015)
30/11 > Conversa com a escritora Jeanne Callegari | Mediação Marcos Nascimento

PROJETOS | CARAVANA ALMANAQUE 8

por Guilherme Gonçalves

A essa altura você talvez saiba, a oficina experimental está bolando um almanaque, com exercícios de escrita, horóscopo, crônica, previsões, poemas. Almanaque vem da língua árabe, como açúcar, açafrão, azul, como a poesia. Diferente das línguas ocidentais, que são traduções, o árabe é um poema da boca de deus. Almanaque diz acampamento dos que cortam o deserto e também chão onde o camelo se ajoelha. A essa altura você sabe, o deserto cresce e todos os dias matam com nossas mãos. (mais…)

PROJETOS | CARAVANA ALAMANAQUE 7

por Rafael Zacca

Parece que sim. A praia de Atalaia já viu tubarões. Ontem eu disse pro Rodrigo que não, mas tem até vídeo no youtube. Se tem vídeo no youtube deve ser verdade, é por isso que chamam de vídeo. Há dois anos um grupo de pescadores arranjou um tubarão-tigre de quase 4 metros, capturado a uns 30km da praia de Atalaia. Na foto, têm o tubarão em cima de um jipe, parece, e abrem a sua boca, sorrindo, como se o tubarão sorrisse também, mas não sei se os tubarões caçam para sorrir. Um dos moços não sorri. Ostenta um bigode, um boné e um joinha.

Parece que sim. O Almanaque vai sair. A Ana tava preocupada, e a Duda desesperou quando a Izabela Pucu, diretora do CMAHO, explicou pra gente os nossos prazos. Augusto segura bastante o rojão, acho que sem ele o projeto teria degringolado. Tenho dito pras pessoas, é uma doideira fazer um livro coletivo. (mais…)

PROJETOS | CARAVANA ALMANAQUE 6

por Eduarda Moura

desculpem a ausência hoje não vai dar estou preso no trânsito vou comer um bolo e eles ainda esquentam os olhos como dois tomates enormes um sustão domingo à noite tô cansadão corri a semana toda peguei essas balas num xerox da puc cês não querem não esse coletor menstrual primeiro dia to me achando muito corajosa eles perderam as listas de chamada não sei pra quem entregamos mas se nunca tiver assinado coloca teu cpf aí ele já tá ótimo mas foi um sustão no domingo à noite passa álcool na mãoconjuntivite séria foi programa do gugu domingo à noite um sustão precisamos pensar um cronograma uma agenda quem ficou de trazer coisas pra hoje (mais…)

PROJETOS | CARAVANA ALMANAQUE 5

por Ana Carolina Assis

sexta, 30 de setembro de 2016.

chega um dia em que as coisas dão um nó, saca? do nó sai a possibilidade fazermos algo mais real e firme do que até agora, ufa. é assim: decidimos escrever algo sobre nós mesmos e é estranho, nunca houve consenso aqui e pluralidade de vozes é bonito na expressão mas arranha. arranhou assim: textos dos meninos foram chegando e sendo tratados como neutros ou comuns por todos nós, até que apareceu o texto da duda e a dificuldade de falar e os tombos e limpar os joelhos ajeitar os cabelos (mais…)