Ana Carolina Assis

PROJETOS | CARAVANA ALMANAQUE 5

por Ana Carolina Assis

sexta, 30 de setembro de 2016.

chega um dia em que as coisas dão um nó, saca? do nó sai a possibilidade fazermos algo mais real e firme do que até agora, ufa. é assim: decidimos escrever algo sobre nós mesmos e é estranho, nunca houve consenso aqui e pluralidade de vozes é bonito na expressão mas arranha. arranhou assim: textos dos meninos foram chegando e sendo tratados como neutros ou comuns por todos nós, até que apareceu o texto da duda e a dificuldade de falar e os tombos e limpar os joelhos ajeitar os cabelos (mais…)

3 poemas | Ana Carolina Assis

por Rafael Zacca

um bicho magro assustado diante dos embrutecidos

Susan Buck-Morss sugeriu há alguns anos que tornar-se adulto no capitalismo é produto de uma tática anestesiante. Não é coincidência que, ainda no século XIX, no auge do desenvolvimento industrial, tenham proliferado tanto as perfumarias quanto os entorpecentes por via olfativa, compensando (e/ou reforçando) a anestesia generalizada. Talvez seja por isso que os poemas de Ana Carolina Assis, uma poeta de São Gonçalo, a um só tempo sejam objeto de comoção e estranhamento. Seus versos, para falar com seu próprio idioma “crispado”, “demoram feito charque”, e pensam “não / com o cérebro / [mas] com o corpinho / úmido e mole”. Uma proliferação de bichos, texturas e cheiros – na solidão terrível dos versos curtos, qualquer coisa como uma criança sem a companhia de outras crianças – tentam, não sem algum desespero, uma reeducação estética às pressas. Não querem, no entanto, ensinar-nos qualquer humanidade. A criança ou os bichos querem devolver alguma coisa que nos foi tomada, ou negada – “os ralos regurgitando carne e atraso pros jantares”. Os adultos que comam sozinhos, parece dizer Ana; sem nomes para (mais…)

OFICINA | Parque de versões

por Luiz Guilherme Barbosa

coney-island-vintage

Steeplechase Park por volta de 1957

Consta que Lydia Davis preparou um índice remissivo composto por uma única linha: “Cristã, não sou”. Também não pareceu ser este o caso dos poetas publicados aqui enquanto os seus poemas aconteciam subvertendo de uma só vez dois mandamentos do Decálogo: pois furtaram versos, e deram falso testemunho dos versos roubados nos poemas novos. Um dia o personagem de uma novela que líamos em sala de aula numa turma do ensino médio soltou um palavrão – Caralho! – mas a aluna que lia em voz alta para a turma corou, se recusou a ler, disse que era cristã. E então houve o que houve: o respeito à sua posição, e a crítica à relação com a linguagem – ela, como todos da turma, leu impresso no papel o palavrão, que soou silenciosamente nas cacholas de cada um e de todos, e assim ninguém deixou de ver, ler e escutar em si mesmos o esporro de um palavrão cuja voz foi roubada. Às vezes tudo se resume às possibilidades do alfabeto: com ele se produzem mandamentos, palavrões e poemas. Acontece que (mais…)

NOTA DOMINICAL | Diferença e tempestade: Stela do Patrocínio e Zbigniew Libera

por Ana Carolina Assis

Mês passado me deparei com o LEGO Concentration Camp: em 1996, o artista polonês Zbigniew Libera construiu uma maquete de um campo de concentração, nos mínimos detalhes, todo feito de LEGO. A empresa doou as peças a seu pedido e depois afirmou desconhecer o objetivo do projeto. Zbigniew afirma ter se guiado pelo slogan da marca “Make your world possible”.

Libera, Lego Concentration Camp

LEGO Concentration Camp |  Zbigniew Libera

(mais…)