Eduarda Moura

PROJETOS | CARAVANA ALMANAQUE 6

por Eduarda Moura

desculpem a ausência hoje não vai dar estou preso no trânsito vou comer um bolo e eles ainda esquentam os olhos como dois tomates enormes um sustão domingo à noite tô cansadão corri a semana toda peguei essas balas num xerox da puc cês não querem não esse coletor menstrual primeiro dia to me achando muito corajosa eles perderam as listas de chamada não sei pra quem entregamos mas se nunca tiver assinado coloca teu cpf aí ele já tá ótimo mas foi um sustão no domingo à noite passa álcool na mãoconjuntivite séria foi programa do gugu domingo à noite um sustão precisamos pensar um cronograma uma agenda quem ficou de trazer coisas pra hoje (mais…)

OFICINA | Parque de versões

por Luiz Guilherme Barbosa

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Steeplechase Park por volta de 1957

Consta que Lydia Davis preparou um índice remissivo composto por uma única linha: “Cristã, não sou”. Também não pareceu ser este o caso dos poetas publicados aqui enquanto os seus poemas aconteciam subvertendo de uma só vez dois mandamentos do Decálogo: pois furtaram versos, e deram falso testemunho dos versos roubados nos poemas novos. Um dia o personagem de uma novela que líamos em sala de aula numa turma do ensino médio soltou um palavrão – Caralho! – mas a aluna que lia em voz alta para a turma corou, se recusou a ler, disse que era cristã. E então houve o que houve: o respeito à sua posição, e a crítica à relação com a linguagem – ela, como todos da turma, leu impresso no papel o palavrão, que soou silenciosamente nas cacholas de cada um e de todos, e assim ninguém deixou de ver, ler e escutar em si mesmos o esporro de um palavrão cuja voz foi roubada. Às vezes tudo se resume às possibilidades do alfabeto: com ele se produzem mandamentos, palavrões e poemas. Acontece que (mais…)

PEQUENA CRÍTICA | “toda arte é uma conversão do defeito em linguagem” | Sobre Nuno Ramos

por Eduarda Moura

Das coisas ditas por Nuno Ramos, aquelas de que mais gostei foram as que tratavam de suas limitações. Numa entrevista, Nuno conta que, quando percebeu que compreendia muito menos do que lia quando estudava filosofia, entrou em crise com o texto. Daí o interesse pela matéria e pelas artes plásticas, mas também uma vontade de lidar com uma linguagem em que não possuía técnica alguma. Diferentemente da literatura, cuja linguagem lhe é mais familiar, tanto por ter tido um pai professor de literatura da USP quanto por escrever desde cedo, Nuno diz não saber nada sobre as técnicas tradicionais das artes plásticas. Embora quisesse possuir tais recursos, coloca em questão os saberes especializados quando declara que “toda arte é uma conversão do defeito em linguagem”. Essa afirmação, me parece, abre um caminho de experimentação bastante rico, já que a limitação não seria a impossibilidade de realizar o trabalho artístico, mas justamente sua força.

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