Heyk Pimenta

PROJETOS | CARAVANA ALMANAQUE 9

por heyk pimenta

uma vez o tom zé falou que na venda do pai dele o único assunto de todos os dias era ética. ficava lá a freguesia falando sobre como as coisas pra fazer tinham que ser feitas. como as coisas feitas tinham que ter sido feitas. o gil também tinha pai com venda. a ética da agricultura, da roupa lavada no rio, de tocar boi, de dar tiro. tiro pro alto é uma, pra frente é outra. tem cara de pequena ética. mas é ética mesmo.
ficar junto é condição pra ser gente. ser gente, por isso, é a coisa mais difícil da vida. o pior é quando é fácil. o tudo certo nada resolvido é um bom jeito de entubar as porcarias. (mais…)

3 poemas | Marcelo Reis de Mello ou o único lugar para ser sincero

por Heyk Pimenta

Quando conseguimos furar o bloqueio do cão-de-guarda-das-gafes-e-atos-constrangedores, por vezes aparece algum traço de sinceridade nos poemas. E isso não tem nada a ver com falar dos próprios defeitos como quem pede esmolinhas, não é estar cagado inteiro e pedir banho a quem passa. Durante o banho, tentar beijar na boca a alma caridosa.
Desde que li os poemas do Marcelo, já em livro, eram do Esculpir a luz, publicado na sua própria editora, a Cozinha Experimental, tive um encontro raro com a sinceridade. O desgraçado cantava os avós, as meninas que quase o mataram, os amigos mortos, sua sujeira, sua pequenez, cantava tudo sem pedir desculpas, sem se gabar, cantava como quem reconhece a correnteza e nada e cansa e entende que não há margem, há só correnteza. (mais…)

Pequena nota | “CARCAÇA” LIVRO DO MÊS DE SETEMBRO NA OEP

por Heyk Pimenta

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Carcaça é o livro mais recente do maranhense Josoaldo Lima Rêgo, que também publicou Variações do mar, Máquina de filmar e Paisagens possíveis (todos pela 7Letras). Geógrafo e poeta, o autor articula esses dois universos, pensando espaço e poema com urgência e labor.

Na contramão do poema prosaico, narrativo, longo e de imagens cotidianas que tem aparecido nas resenhas, nas prateleiras, nas festas e nos prêmios, Josoaldo consegue nos mostrar a força do verso, apostando na precisão, no pouco, na secura da poesia.
Acompanhados de silêncios curtos, duros, certos poemas se parecem parte de uma conversa que não nos foi endereçada, que pegamos pelo meio, interna, íntima, que nos deixa apenas sua densidade, a apreensividade que a transporta. (mais…)

PROJETOS | CARAVANA ALMANAQUE | intro.

por Heyk Pimenta

Estamos tem tempo sem largar o osso. Bolando jeitos de viver juntos, fazer poesia, falar disso e principalmente não morrer. Contamos pros outros como é fazer parte de uma caravana que não tem ponto de chegada. E andamos. O Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, que desde março joga conosco, agora nos cedeu espaço e jeito para escrevermos um almanaque com propostas de oficina, reflexões sobre o que temos feito e faremos e o que mais couber num almanaque. É para isso a série de crônicas que agora anunciamos. Semanalmente um dos participantes da Oficina vai narrar como estão sendo nossas imersões, não como um escrivão, mas como quem terá os encontros como ponto de partida e, a partir dali, queira contar.

OFICINA | Parque de versões

por Luiz Guilherme Barbosa

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Steeplechase Park por volta de 1957

Consta que Lydia Davis preparou um índice remissivo composto por uma única linha: “Cristã, não sou”. Também não pareceu ser este o caso dos poetas publicados aqui enquanto os seus poemas aconteciam subvertendo de uma só vez dois mandamentos do Decálogo: pois furtaram versos, e deram falso testemunho dos versos roubados nos poemas novos. Um dia o personagem de uma novela que líamos em sala de aula numa turma do ensino médio soltou um palavrão – Caralho! – mas a aluna que lia em voz alta para a turma corou, se recusou a ler, disse que era cristã. E então houve o que houve: o respeito à sua posição, e a crítica à relação com a linguagem – ela, como todos da turma, leu impresso no papel o palavrão, que soou silenciosamente nas cacholas de cada um e de todos, e assim ninguém deixou de ver, ler e escutar em si mesmos o esporro de um palavrão cuja voz foi roubada. Às vezes tudo se resume às possibilidades do alfabeto: com ele se produzem mandamentos, palavrões e poemas. Acontece que (mais…)

NOTA DOMINICAL | Marimbondo sem ferrão presta pra nada? | Sobre “A vida dos poetas” de André Chenet

por Heyk Pimenta

Estou com uma toalha verde na cabeça. Era da minha ex. Coisas que herdamos. Há anos uma hóspede portuguesa resolveu descolorir alguma coisa e manchou a toalha junto. Um círculo amarelado numa das pontas. Há uma semana minha mãe veio nos visitar. Usou a mesma toalha, que já é bem mais fina.

No sábado estava no Pedro II, onde dou aula. Num intervalo da reunião de pais, li uma tradução que o Leo Gonçalves fez de “A vida dos poetas (improviso)”, um poema do André Chenet. Foi a Modo de Usar que publicou.

O poema é uma espécie de etnografia em torno dos poetas. Começa e termina dizendo que poesia não traz felicidade, sim, é desses poemas que queremos desdobrar e sentimos que a melhor forma de falar sobre ele é colando o maldito aqui dentro desse texto. http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2016/07/andre-chenet.html. Pronto. Colado.

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O QUE TEM FEITO, PEDRO ROCHA?

por Heyk Pimenta

pedro rocha

“Heyk, o computador tá um pouco confuso pra organizar os poemas, me passa seu endereço e envio pra você pelo correio.” Gostei. Receberia uma carta de um poeta que mora na mesma cidade que eu. Chegou, mas não pelo correio. Pedro levou os poemas em um envelope ao morro da Conceição no último sábado, falaríamos poemas n’A Mesa. “Heyk, o correio me mandou entregar pessoalmente. As filas estão imensas, porque, segundo disseram, agora tudo se faz no correio.” O envelope tinha meu endereço e o dele. Três folhas datilografadas e carimbadas, três poemas, um deles batido só com as teclas da máquina, com força, sem tinta, cada letra marcando e quase furando o papel.

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O QUE TEM FEITO, RENATO REZENDE?

por Heyk Pimenta

foto de Luciana Lopes

foto de Luciana Lopes

 

“Não tenho escrito muito. E muito menos ainda poesia. Acho que poesia é coisa de mulher. E agora sou um homem. Um homem que envelhece. Pelo menos, por ora.”

Essa foi a resposta de Renato Rezende à pergunta da Oficina. A sessão “O que tem feito?” trará notícias e poemas recentes de autores que já passaram pelas nossas sabatinas. Poeta, crítico, curador, tradutor e romancista paulistano, Renato ganhou duas vezes o Prêmio Biblioteca Nacional com os livros Passeio (Record, 2001) e Ímpar (Lamparina, 2005), depois de ter passado pela Índia, Estados Unidos e se fixado no Rio de Janeiro ainda nos anos 1990.

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