Julya Tavares

OFICINA | Parque de versões

por Luiz Guilherme Barbosa

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Steeplechase Park por volta de 1957

Consta que Lydia Davis preparou um índice remissivo composto por uma única linha: “Cristã, não sou”. Também não pareceu ser este o caso dos poetas publicados aqui enquanto os seus poemas aconteciam subvertendo de uma só vez dois mandamentos do Decálogo: pois furtaram versos, e deram falso testemunho dos versos roubados nos poemas novos. Um dia o personagem de uma novela que líamos em sala de aula numa turma do ensino médio soltou um palavrão – Caralho! – mas a aluna que lia em voz alta para a turma corou, se recusou a ler, disse que era cristã. E então houve o que houve: o respeito à sua posição, e a crítica à relação com a linguagem – ela, como todos da turma, leu impresso no papel o palavrão, que soou silenciosamente nas cacholas de cada um e de todos, e assim ninguém deixou de ver, ler e escutar em si mesmos o esporro de um palavrão cuja voz foi roubada. Às vezes tudo se resume às possibilidades do alfabeto: com ele se produzem mandamentos, palavrões e poemas. Acontece que (mais…)

PEQUENA CRÍTICA | Um acidente para começar o dia | Marília Garcia e microgeografia

por Julya Tavares

Numa entrevista durante a FLIP desse ano, Marília Garcia se referiu à poesia como “um quadrado de respiração em meio ao caos”, uma espécie de existência possível que atua por um viés micropolítico, transformando partículas mínimas: uma vida. O que mais me chama atenção em sua escrita é atravessado justamente por esse olhar – “um tipo de lente pra ver de outra maneira” – que percebe e lida com a poesia como um dispositivo capaz de reconfigurar nossa percepção das coisas, deslocando as relações anteriormente estabelecidas, aquilo que seria previsível, para trazer à vista os encontros e tensões ainda possíveis. Manter as linhas – das lembranças, das vivências, dos poemas – não como de fato teriam ocorrido, mas de alguma maneira redesenháveis, como numa cartografia aberta. (mais…)