Marcelo Reis de Mello

PEQUENA CRÍTICA | AS VÍSCERAS DELICADAS

Texto publicado originalmente na revista portuguesa Relâmpago, nº33.
Por Marcelo Reis de Mello

 

Delicadeza é uma palavra ambígua, difícil. Poderíamos usá-la para denunciar o lirismo comedido e afetado, como fez João Cabral em sua Antiode: “Delicado, evitava / o estrume do poema, / seu caule, seu ovário, suas intestinações”. E muito antes do pernambucano, o simbolista francês Arthur Rimbaud já tinha escrito: “Por delicadeza / Perdi minha vida”. Mas também há quem enxergue na delicadeza uma potência positiva e uma sutil resistência à brutalidade do mundo. Além disso, a palavra sempre foi usada para enfatizar a perícia técnica e a sensibilidade invulgar dos poetas, não sendo difícil ler por aí que os versos de Drummond ou Bandeira – para ficarmos apenas com os exemplos canônicos – são de uma delicadeza extraordinária.

Tudo isso pra dizer que o livro Sentimental – o sexto do poeta carioca Eucanaã Ferraz[1] – é certamente um livro delicado. Mas não é doce. Nem limpinho. Seu coração é uma víscera empedrada: “Quase só músculo a carne dura. / É preciso morder com força”. Dentes fortes sim, sem dúvida, mas não para despedaçar ou despoetizar a poesia, como reivindicam alguns entre os seus pares. Ferraz não é um poeta barulhento, de punho cerrado e boca espumante. Mas nos melhores momentos a sua poesia é vigorosa, é radical. Quando o livro Desassombro foi lançado, em 2002, Francisco Bosco afirmou acertadamente que Eucanaã Ferraz trabalha na “radicalidade dos desextremos”. E é isso que o leitor encontra em todos os seus livros, inclusive no último, onde se recombinam os temas e as formas cristalizadas da tradição literária, para deslindar suas brechas, os interstícios, as margens dentro das margens.

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3 poemas | Marcelo Reis de Mello ou o único lugar para ser sincero

por Heyk Pimenta

Quando conseguimos furar o bloqueio do cão-de-guarda-das-gafes-e-atos-constrangedores, por vezes aparece algum traço de sinceridade nos poemas. E isso não tem nada a ver com falar dos próprios defeitos como quem pede esmolinhas, não é estar cagado inteiro e pedir banho a quem passa. Durante o banho, tentar beijar na boca a alma caridosa.
Desde que li os poemas do Marcelo, já em livro, eram do Esculpir a luz, publicado na sua própria editora, a Cozinha Experimental, tive um encontro raro com a sinceridade. O desgraçado cantava os avós, as meninas que quase o mataram, os amigos mortos, sua sujeira, sua pequenez, cantava tudo sem pedir desculpas, sem se gabar, cantava como quem reconhece a correnteza e nada e cansa e entende que não há margem, há só correnteza. (mais…)

PEQUENA CRÍTICA | MISTÉRIO RITMO | ARTURO CARRERA

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“O homem mais portátil do mundo” | Arturo Carrera | Trad. Marcelo Reis de Mello | Azougue

por Marcelo Reis de Mello

Arturo Carrera é um poeta, crítico e tradutor argentino nascido no ano de 1948, na pequena Pringles, província de Buenos Aires. Considerado um dos personagens mais representativos da poesia contemporânea, inscreve-se no panteão da vanguarda latinoamericana que Néstor Perlongher viria a chamar de Neobarroso. Sua escrita atravessa muitos momentos diferentes, por onde entrevemos uma imensa teia de afinidades e influências, a começar pela conterrânea Alejandra Pizarnik, passando por Haroldo de Campos, os cubanos Lezama Lima e Severo Sarduy, a uruguaia Marosa di Giorgio, mas também o naturalista e escritor Guillermo Enrique Hudson, Henri Michaux e Mallarmé, para citar apenas alguns entre os mais recorrentes.

O texto que apresentamos aqui, “Mistério Ritmo”, pertence ao seu livro Ensayos Murmurados (Mansalva, 2009), cuja tradução ao português foi publicada no volume O homem mais portátil do mundo (Azougue / Circuito, 2014). A linguagem ensaística e a poesia (mais…)

PEQUENA CRÍTICA | DOIS POETAS SEM QUALIDADES – RESENHA DOS LIVROS DE GIOVANI BAFFÔ E THIAGO CERVAN

por Marcelo Reis de Mello

Um dos momentos mais polêmicos e frutuosos no debate sobre o lugar da poesia contemporânea foi, sem nenhuma dúvida, o lançamento em Portugal do livro “Poetas sem qualidades” (2002) com prefácio-bomba de Manuel de Freitas, estudado a partir de então como um arauto dessa nova dicção lírica. Poetas sem qualidades são para Freitas (que aí se inclui) os que escrevem dentro e a partir de um mundo também sem qualidades, reificado, mercantilizado; aqueles que não negam os influxos da linguagem publicitária ou da cultura pop, exercendo por via de um coloquialismo escarnecido as suas agonias urbanas, enfim: os que sabem que sonham sonhos com códigos de barras.

Tanto Giovani Baffo quanto Thiago Cervansão também “poetas sem qualidades”. Ambos escrevem nos seus poemas curtos a experiência da cidade e entendem a escritura como exercício identitário, onde o lirismo emerge não dos devaneios transcendentes isolados da realidade, mas da relação direta com as coisas e acontecimentos do mundo, com os livros, as mensagens publicitárias misturadas aos poemas espirituosos de Leminski, com o amor difícil dos quartinhos abafados, as palavras anotadas embaixo desta luz sem aura dos postes de mercúrio.

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