Nathalie Quintane

NOTA DOMINICAL | A REEDUCAÇÃO EM NÓS DA ATITUDE INFANTIL: UMA NOTA DE CRIANÇA SOBRE NATHALIE QUINTANE

por Rafael Zacca

Começo [autobiografia] (2004, 7Letras e Cosac & Naify, trad. de Paula Glenadel), de Nathalie Quintane, é uma viagem pedagógica. Sua escritura se insere no começo dos caminhos e das sensações: ao perfazer sua autobiografia (pois não se trata, efetivamente, de nenhuma “narrativa”), a escritora nos convida a um retorno incessante. Esse retorno tem pelo menos três faces: o da sensibilidade, o da estrutura e o da escritura.

As feituras do absurdo que abrem o livro sob o título “Começo” são significativas a propósito desse retorno à sensibilidade. Faz-se um “Ele” que tem um buraco na bochecha, uma espécie de segunda boca que “é preciso com o dedo levantar a pele enquanto a outra mão avança a colher; uma vez a quantidade despejada, o dedo descansa e a pele retoma o seu lugar.” Faz-se um “Ela” que nasceu com uma mosca na perna, cujo desenvolvimento podemos acompanhar, a partir de raios X e infravermelhos: “podemos seguir suas evoluções, admirá-la comendo, vê-la dormir de pé. Ela é tranquila: esta mosca não pode observá-la, a ela; enquanto ela permanece ali, tem apenas um pedaço ridículo de tecido, que ela suga.” Faz-se ainda outro “Ele” que nasceu com o fígado para fora do corpo, e traz “o fígado numa bolsa, fixada a um cinto em volta da cintura”, e “antes de sentar-se, ele a levanta para que ela pouse sobre a sua coxa sem bater nela.” Em seus detalhes, essas narrativas nos devolvem ao extremo da percepção, e nos ensinam a res-sentir as coisas.

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