Rafael Zacca

3 poemas | Frederico Klumb

por Rafael Zacca

criança triste diante de guerras que não viu

Nas promessas sempre vivem umas quantas crianças, ou, pelo menos, um tom de fábula dos livros infantis. Nelas o que se recusa, já se disse, é justamente a renúncia. É isso o que vive no tom de voz melancólico de Frederico Klumb ao atravessar tempos, lugares e as obras de outrxs artistas, ao carregar, nos seus olhos cineastas, feridas “de guerras / que não viram”. E, tal como as promessas, seus versos surgem sempre diante da probabilidade quase certa do acidente: “a última noite / no corredor da morte / é a mais calma”. O que se recusa, já se disse, é justamente a renúncia. Nos poemas aqui apresentados, essa recusa se manifesta na recriação de pequenos instantes cinematográficos, confundidos à vida do eu-lírico. Junto ao tom melancólico, portanto, quero chamar a atenção para o pequeno frêmito que se agita no fundo de sua poesia: “o sono dos peixes / de olhos abertos”. Ou: filma-se, de olhos fechados. Em um poema publicado recentemente na revista Modo de Usar, Frederico fixa a imagem de sua poesia até aqui na forma de um amor:

………………..você a me dizer
………………..que o que a gente têm é uma pequena
………………..revolução industrial

………………..linda e terrível

Perigo e redenção se confundem em uma mesma expressão. Certa vez, Fred me contou de um acidente que teve no trepa-trepa quando criança. Deve ter batido o queixo 7 vezes, e passou por umas quantas cirurgias. Quando conversamos, tenho a impressão de que esse acidente se repete, e o Fred segue vivo como as crianças seguem vivas depois de pancadas inacreditáveis. Seguem, então, três poemas de F. Klumb.

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PROJETOS | CARAVANA ALAMANAQUE 7

por Rafael Zacca

Parece que sim. A praia de Atalaia já viu tubarões. Ontem eu disse pro Rodrigo que não, mas tem até vídeo no youtube. Se tem vídeo no youtube deve ser verdade, é por isso que chamam de vídeo. Há dois anos um grupo de pescadores arranjou um tubarão-tigre de quase 4 metros, capturado a uns 30km da praia de Atalaia. Na foto, têm o tubarão em cima de um jipe, parece, e abrem a sua boca, sorrindo, como se o tubarão sorrisse também, mas não sei se os tubarões caçam para sorrir. Um dos moços não sorri. Ostenta um bigode, um boné e um joinha.

Parece que sim. O Almanaque vai sair. A Ana tava preocupada, e a Duda desesperou quando a Izabela Pucu, diretora do CMAHO, explicou pra gente os nossos prazos. Augusto segura bastante o rojão, acho que sem ele o projeto teria degringolado. Tenho dito pras pessoas, é uma doideira fazer um livro coletivo. (mais…)

PEQUENA NOTA | A MORTE A MORTE E A MORTE DE SYLVIA PLATH

por Rafael Zacca

A morte de poetas. Vão cedo. As biografias são apenas a pá que encerra o trabalho iniciado pelas mitologias do mercado. Não morrem em acidentes, suicídios, não morrem com doenças, assassinatos, nem de morte natural. A morte vem cedo, aniquilando a força de linguagem e a linguagem de força que produziram com a época, em favor de sua imagem como estrela, mártir ou maldição.

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Sylvia Plath anunciou por algum tempo (mais…)

3 poemas | Ana Carolina Assis

por Rafael Zacca

um bicho magro assustado diante dos embrutecidos

Susan Buck-Morss sugeriu há alguns anos que tornar-se adulto no capitalismo é produto de uma tática anestesiante. Não é coincidência que, ainda no século XIX, no auge do desenvolvimento industrial, tenham proliferado tanto as perfumarias quanto os entorpecentes por via olfativa, compensando (e/ou reforçando) a anestesia generalizada. Talvez seja por isso que os poemas de Ana Carolina Assis, uma poeta de São Gonçalo, a um só tempo sejam objeto de comoção e estranhamento. Seus versos, para falar com seu próprio idioma “crispado”, “demoram feito charque”, e pensam “não / com o cérebro / [mas] com o corpinho / úmido e mole”. Uma proliferação de bichos, texturas e cheiros – na solidão terrível dos versos curtos, qualquer coisa como uma criança sem a companhia de outras crianças – tentam, não sem algum desespero, uma reeducação estética às pressas. Não querem, no entanto, ensinar-nos qualquer humanidade. A criança ou os bichos querem devolver alguma coisa que nos foi tomada, ou negada – “os ralos regurgitando carne e atraso pros jantares”. Os adultos que comam sozinhos, parece dizer Ana; sem nomes para (mais…)

OFICINA | Parque de versões

por Luiz Guilherme Barbosa

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Steeplechase Park por volta de 1957

Consta que Lydia Davis preparou um índice remissivo composto por uma única linha: “Cristã, não sou”. Também não pareceu ser este o caso dos poetas publicados aqui enquanto os seus poemas aconteciam subvertendo de uma só vez dois mandamentos do Decálogo: pois furtaram versos, e deram falso testemunho dos versos roubados nos poemas novos. Um dia o personagem de uma novela que líamos em sala de aula numa turma do ensino médio soltou um palavrão – Caralho! – mas a aluna que lia em voz alta para a turma corou, se recusou a ler, disse que era cristã. E então houve o que houve: o respeito à sua posição, e a crítica à relação com a linguagem – ela, como todos da turma, leu impresso no papel o palavrão, que soou silenciosamente nas cacholas de cada um e de todos, e assim ninguém deixou de ver, ler e escutar em si mesmos o esporro de um palavrão cuja voz foi roubada. Às vezes tudo se resume às possibilidades do alfabeto: com ele se produzem mandamentos, palavrões e poemas. Acontece que (mais…)

PEQUENA CRÍTICA | O ÓCIO VITAL E O CANSAÇO DOS VAGALUMES

por Rafael Zacca

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Gaya Rachel, 2015

A primeira vez que vi um conjunto de trabalhos reunidos da Gaya Rachel foi em agosto de 2015, quando ela apresentou parte de sua pesquisa acerca de algumas lendas do interior do Brasil. Eram telas enormes, que lembravam bandeiras, reelaborando, em cores áridas, instantes dessas narrativas, como o serpentear do Boitatá, ou o chamado da Kaapora.

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NOTA DOMINICAL | A REEDUCAÇÃO EM NÓS DA ATITUDE INFANTIL: UMA NOTA DE CRIANÇA SOBRE NATHALIE QUINTANE

por Rafael Zacca

Começo [autobiografia] (2004, 7Letras e Cosac & Naify, trad. de Paula Glenadel), de Nathalie Quintane, é uma viagem pedagógica. Sua escritura se insere no começo dos caminhos e das sensações: ao perfazer sua autobiografia (pois não se trata, efetivamente, de nenhuma “narrativa”), a escritora nos convida a um retorno incessante. Esse retorno tem pelo menos três faces: o da sensibilidade, o da estrutura e o da escritura.

As feituras do absurdo que abrem o livro sob o título “Começo” são significativas a propósito desse retorno à sensibilidade. Faz-se um “Ele” que tem um buraco na bochecha, uma espécie de segunda boca que “é preciso com o dedo levantar a pele enquanto a outra mão avança a colher; uma vez a quantidade despejada, o dedo descansa e a pele retoma o seu lugar.” Faz-se um “Ela” que nasceu com uma mosca na perna, cujo desenvolvimento podemos acompanhar, a partir de raios X e infravermelhos: “podemos seguir suas evoluções, admirá-la comendo, vê-la dormir de pé. Ela é tranquila: esta mosca não pode observá-la, a ela; enquanto ela permanece ali, tem apenas um pedaço ridículo de tecido, que ela suga.” Faz-se ainda outro “Ele” que nasceu com o fígado para fora do corpo, e traz “o fígado numa bolsa, fixada a um cinto em volta da cintura”, e “antes de sentar-se, ele a levanta para que ela pouse sobre a sua coxa sem bater nela.” Em seus detalhes, essas narrativas nos devolvem ao extremo da percepção, e nos ensinam a res-sentir as coisas.

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OFICINA | BEIJO GREGO, TRADUÇÃO PORTUGUÊS-PORTUGUÊS

por Rafael Zacca

Com a oficina “Beijo grego”, propus exercícios para a tradução de poemas do português para o português. A partir de uma tradução coletiva do poema de Manuel Bandeira (“A Realidade e a Imagem”), partimos para a tradução individual de um poema contemporâneo. Foram traduzidos poemas de Mariana Botelho, Leonardo Marona, Lucas Matos e de Augusto Meneghin.

Os resultados foram impressionantes. Cada transcriador (esse tradutor que assume a sua inventividade) privilegiou diferentes aspectos dos poemas para a sua tradução.

O poeta Guilherme Gonçalves, por exemplo, concentrou-se na imagem formada pelo poema de Mariana Botelho, para refazê-la a partir de apenas dois versos: a tradução se deu da linguagem prosaica para a língua curta da palavra-imagem. Já a poeta Grazielle Alves, optou por traduzir o mesmo poema de Botelho para a linguagem da noite.

Simone Vieira traduziu o sol carteiro infalível de Augusto Meneghin pela solidão incontornável de uma família vazia. E Heyk Pimenta optou por traduzir o poema de Leonardo Marona a partir de uma relação de isomorfia: manteve a forma, substituindo os significantes do amor e do cansaço pelas carnalidades da comida e pela intoxicação das fumaças.

Confiram essas soluções e algumas outras.

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