Thiago Cervansão

PEQUENA CRÍTICA | DOIS POETAS SEM QUALIDADES – RESENHA DOS LIVROS DE GIOVANI BAFFÔ E THIAGO CERVAN

por Marcelo Reis de Mello

Um dos momentos mais polêmicos e frutuosos no debate sobre o lugar da poesia contemporânea foi, sem nenhuma dúvida, o lançamento em Portugal do livro “Poetas sem qualidades” (2002) com prefácio-bomba de Manuel de Freitas, estudado a partir de então como um arauto dessa nova dicção lírica. Poetas sem qualidades são para Freitas (que aí se inclui) os que escrevem dentro e a partir de um mundo também sem qualidades, reificado, mercantilizado; aqueles que não negam os influxos da linguagem publicitária ou da cultura pop, exercendo por via de um coloquialismo escarnecido as suas agonias urbanas, enfim: os que sabem que sonham sonhos com códigos de barras.

Tanto Giovani Baffo quanto Thiago Cervansão também “poetas sem qualidades”. Ambos escrevem nos seus poemas curtos a experiência da cidade e entendem a escritura como exercício identitário, onde o lirismo emerge não dos devaneios transcendentes isolados da realidade, mas da relação direta com as coisas e acontecimentos do mundo, com os livros, as mensagens publicitárias misturadas aos poemas espirituosos de Leminski, com o amor difícil dos quartinhos abafados, as palavras anotadas embaixo desta luz sem aura dos postes de mercúrio.

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